Uma das promessas de Ano Novo é largar do cigarro. Eu, fumante há 50 verões, imagine quantas vezes me compromissei com isso. Pessoas passaram a olhar-me com rabo de olhos, faziam cara feia se, levado pela brisa, respirassem do meu fumo. “Fumantes passivos se ferram do mesmo jeito” – repetiam nervosos. Sentia-me cancelado. Passou o tempo em que fumar era um charme no cinema, restaurantes, nas escolas, consultórios médicos, nas festas, igrejas... Automóveis vinham de fábrica com acendedores e cinzeiros e, logo após a decolagem do avião, aparecia o sinalzinho apagando o xis em vermelho sobre um cigarro esfumaçante.
Sem falar daquelas pastilhas que deixam na boca um gosto de ferro oxidado, foram várias as tentativas de libertar-me do vício eivado de condicionamentos. Entre elas, os adesivos de liberação da nicotina. O primeiro, grande, o segundo, médio. No terceiro estágio, pequenino, eu já estava aspirando a mistura de livramento daquele emplasto e falsa vitória. Falaram-me que um tal de Bup, para transtornos depressivos, era tiro e queda. Tomei um comprimido e, no outro dia, olhei para o maço de cigarros com desdém. Mas... e há muitos adversativos, desvencilhei-me do Bup e voltei a fumar.
A acupunturista aplicou-me agulhas nas orelhas (não sei como pessoas conseguem dormir com brincos). Outra vez, tiro e queda. Mas antes do fim da semana livrei-me das pontudinhas. “Sandra, me desculpe, eu gosto de fumar!”. Até recitei pra ela um Fernando Pessoa decidido:
“Enquanto o Destino mo conceder
continuarei fumando”.
Noutra estrofe de ‘Tabacaria’, o personagem dá uma funda tragada:
“Saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos...
deito-me para trás na cadeira
e continuo fumando...”.
E suspira, sonhador:
“Se eu me casasse com a filha da minha lavadeira
talvez fosse feliz...”.
Aí, sobreveio-me o tumor na bexiga. E agora? Submeti-me à cirurgia e sessões semanais de quimioterapia com entrada pelo pingolim. É do peru! Na chegada ao hospital, um sorriso amarelo; no durante, um filme chato de três horas, não acaba. No fim, sensação de alívio e tapete puxado. Decidi, por fim, desatar-me do fumo. Da drogaria trouxe logo duas caixas de cloridrato de bupropiona, o tal do Bup, e tomei o comprimido de noite. No dia seguinte, soneira, confusão mental. Falei comigo: largo da geringonça sem adesivos, agulhas, remédios. Tranquei num saco de plástico os isqueiros e vários maços espalhados pela casa. Estão na gaveta à espera que não chega.
Quando me some a palavra ideal para esta crônica, solto do mouse e levo a mão maquinalmente ao cigarro que sumiu dali. Contudo, no geral, não sinto quase nada dessa abstinência. Vez em quando, um desejo agudo que se esvai como fumaça. Não me aconteceu o que falavam em frases do tipo “você vai provar o verdadeiro sabor dos alimentos” e as desejadas voltas aos frescores juvenis: menos cansaço, memória boa, pele rosada, o bambambã das virtudes. Tudo igual, a não ser a economia com cigarros, compensada pela compra de novas roupas. Ganhei uns quilos e a impressão de que talvez não morra desse câncer, nem do fumo à disposição no saco transparente, a olhar-me chamativo, sabendo do meu desprezo.