Metaverso engolido pela IA
No início da década de 2020, o metaverso foi vendido como o futuro da internet. Mark Zuckerberg, Elon Musk e outras figuras poderosas da tecnologia previram um mundo onde todos viveriam em uma realidade digital paralela, socializando, trabalhando e consumindo dentro de ambientes virtuais imersivos. Empresas investiram bilhões de dólares em pesquisas e desenvolvimento, lançaram plataformas inovadoras e prometeram revoluções. No entanto, poucos anos depois, o sonho do metaverso parece ter murchado.
O conceito de metaverso não é novo. Nos anos 1990, livros de ficção científica como Snow Crash, de Neal Stephenson, já imaginavam sociedades inteiras vivendo em mundos virtuais. Jogos como Second Life e The Sims, que fizeram sucesso na década de 2010, experimentaram a ideia em diferentes graus, mas sem grande adesão da massa. A promessa moderna do metaverso ia além: óculos de realidade virtual, sensores corporais e interfaces neurais criariam um ambiente imersivo onde cada um poderia ser quem quisesse e viver onde bem entendesse.
No entanto, o projeto encontrou obstáculos gigantescos. O primeiro foi a tecnologia. Embora a realidade virtual tenha avançado, ainda está longe de ser confortável ou prática para o uso diário. Óculos pesados, preços altos e a necessidade de hardware potente afastaram muitos usuários. Sem uma experiência fluida, o metaverso nunca conseguiu se tornar atraente o suficiente para substituir a internet tradicional.
Além disso, a promessa de uma economia digital paralela se revelou frágil. Grandes corporações tentaram vender terrenos virtuais, roupas digitais e espaços publicitários no metaverso, esperando uma nova corrida do ouro. Mas a verdade é que poucos quiseram pagar por bens que só existiam na tela. Muitas dessas economias entraram em colapso rapidamente, demonstrando que o valor de um mundo digital não é construído apenas com especulação financeira.
Outro problema foi a falta de apelo do metaverso para o público geral. Apesar do entusiasmo das empresas de tecnologia, a maioria das pessoas simplesmente não quis trocar a vida real por uma digital. Diferentemente das redes sociais, que se integram à rotina sem exigir grandes mudanças, o metaverso exigia dedicação, adaptação e um tempo que poucos estavam dispostos a investir. Para muitos, a ideia de passar horas com um headset no rosto parece mais um fardo do que um prazer.
E então veio o golpe final: a inteligência artificial. Enquanto as big techs despejavam bilhões no metaverso, a IA generativa explodiu com ferramentas como ChatGPT, Midjourney e DALL·E. Subitamente, a conversa não era mais sobre mundos virtuais, mas sim sobre como a inteligência artificial poderia transformar o mundo real — o trabalho, a criatividade e a comunicação. Os investimentos foram redirecionados, e o metaverso perdeu espaço nos planos estratégicos das grandes empresas.
Isso significa que ele desapareceu de vez? Não necessariamente. Algumas empresas, como a Apple, ainda apostam em experiências imersivas, e tecnologias como a realidade aumentada podem resgatar parte dessa ideia de maneira mais prática. Mas o metaverso como foi imaginado, um universo digital onde todos viveríamos, definitivamente perdeu força. Talvez ele não tenha sumido – apenas nunca teve chances reais de nascer.
GABRIEL VITAL
Jornalista, especialista em
Big Data e Marketing, editor
de web do Diário da Região
@ogabrielvital