Em maio de 1982, quando o então prefeito de Rio Preto, Adail Vetorazzo, desincompatibilizou-se do cargo para candidatar-se a deputado federal, seu vice, o economista Roberto Lopes de Souza, assumiu a prefeitura. Com recursos em caixa e apenas oito meses à frente do Executivo, promoveu uma verdadeira transformação na então selvagem Represa Municipal. Foram construídas calçadas, instalados bancos e iluminação e, a partir daí, o local passou a ser ponto de encontro da população.
No embalo das obras realizadas na baixada do rio Preto, Roberto Lopes decidiu promover uma seleção entre artistas da cidade para a criação de um monumento em homenagem aos desbravadores do município, a ser instalado na Praça Cívica. O projeto vencedor foi o do artista Myro Rennie Entrhal. Seu estudo convenceu a comissão nomeada pelo prefeito, sustentado por um desenho cuidadosamente elaborado. A técnica proposta era inusitada: os personagens seriam confeccionados com massa de cimento, jornais velhos e arames. Segundo a comissão julgadora, tratava-se de uma solução criativa e pouco convencional.
Com tudo aprovado e legalizado, as obras tiveram início. Reservado e de poucas palavras, Myro demarcou a área de construção, isolando-a com tapumes de madeirite e instalando uma única porta de acesso, protegida por dois cadeados reforçados e um simples bocal de lâmpada. Dia e noite, o artista era visto sujo de cimento, em constante movimento entre o canteiro e a misteriosa obra. Ninguém podia ver ou fotografar o trabalho antes de sua conclusão — essa era uma exigência do autor.
Somente poucas horas antes da inauguração, quando a banda do 17º Batalhão já se dirigia à Praça Cívica, os tapumes foram retirados. Para surpresa dos membros da comissão e do público presente, a obra apresentada estava completamente fora do que se esperava a partir do projeto contratado.
Na primeira semana, surgiram inúmeras críticas. Como se não bastasse, ainda nesse período, vândalos arrancaram a mão de um dos personagens. A prefeitura acionou o artista, que realizou os reparos necessários. A partir daí, porém, o vandalismo tornou-se constante: a cada dia, um novo dano. Em determinado momento, a prefeitura desistiu de custear os reparos.
Inconformado com a deterioração de sua obra, Myro passou a assumir, por conta própria, os restauros. Permanecia até altas horas da noite no local, como uma espécie de guardião, e sempre que a escultura era danificada, lá estava ele novamente para consertá-la. Esse comportamento transformou-se em obsessão, levando-o a gastos que ultrapassavam suas possibilidades financeiras. Desanimado, trabalhando sozinho e alvo de críticas constantes, acabou desistindo. A obra foi, pouco a pouco, se degradando e caiu no esquecimento da população.
O tema voltou à tona 14 anos depois, em 23 de agosto de 1996, quando a escultura, já bastante danificada, foi retirada pela prefeitura. Três dias mais tarde, o artista Myro Rennie Entrhal sofreu um enfarto fatal.
A fotografia da obra Raízes de Um Povo foi realizada em meados dos anos 1980, durante um passeio ciclístico.
