Antes da invenção da fotografia colorida, produzir uma fotografia artística em preto e branco não era tarefa fácil para os apreciadores da arte fotográfica. Era necessário possuir certo conhecimento acadêmico, especialmente de pintura, dominar as técnicas laboratoriais e ter habilidade para realizar retoques a lápis.
No início, temeu-se que o surgimento da fotografia representasse o fim da pintura, por reproduzir a realidade com maior fidelidade. Isso, porém, não aconteceu. A fotografia seguiu seu próprio caminho e conquistou seu espaço como forma de expressão artística.
Com o passar do tempo e a chegada da fotografia colorida, surgiu uma nova dúvida: a fotografia monocromática iria desaparecer? Afinal, as cores tornam a imagem mais próxima da realidade e naturalmente chamam mais atenção.
Foi justamente nesse momento que o preto e branco evoluiu como linguagem. A fotografia monocromática tornou-se mais elaborada, refinada e seletiva. A força da composição passou a superar o encanto das cores, e o impacto do branco, dos tons de cinza e do preto revelou-se tão expressivo quanto o das imagens coloridas.
Fotografar em preto e branco é muito diferente de fotografar em cores. Exige maior repertório visual e, acima de tudo, respeito às suas raízes. É preciso aprender a enxergar a luz, as sombras, as formas, as texturas e os contrastes como elementos principais da composição. Fotografar em preto e branco não é para qualquer um.
A fotografia que ilustra este texto foi concebida em uma fração de segundo. Trata-se do teatro de arena do Parque da Represa, em Rio Preto, registrada com uma câmera digital. Optei pelo enquadramento vertical, aproveitando as linhas horizontais dos bancos para conduzir o olhar do observador. Por sorte, um bem-te-vi pousou sobre um banco solitário, fora da sequência, acrescentando um ponto de interesse à composição. O ipê curvado trouxe movimento e equilíbrio à cena.
Curiosamente, tudo aconteceu de forma inesperada. O que seria apenas uma caminhada sob o sol transformou-se em uma corrida para escapar da mudança repentina do tempo, quando densas nuvens cobriram o céu, exatamente como aparece na fotografia. A imagem até poderia ser apresentada em cores, mas perderia parte de sua força compositiva e do clima que transmite. Ela precisava ser em preto e branco.
