“Festa no covil” é o romance de estreia do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos (1973-). Publicado originalmente em 2010, na Espanha, com edição brasileira de 2012, esta pequena narrativa (pouco mais de 80 páginas) é impactante.
Villalobos, que goza de destaque dentre os escritores latino-americanos contemporâneos, é conhecido pela ironia, a sátira mordaz, certo humor negro e a abordagem de temas graves por meio do absurdo. Este, aliás, é o caso de “Festa no covil”, romance que trata de referências distorcidas que moldam horizontes existenciais pautados pela violência, pelo crime e pela corrupção.
O narrador da história é um garoto curioso e precoce, segundo lhe dizem algumas pessoas, e que gosta de palavras difíceis. Dentre suas favoritas estão “sórdido”, “nefasto”, “pulcro”, “patético” e “fulminante”, termos que, por fim, permearão a história de como conseguiu um casal de hipopótamos-anões da Libéria para o seu minizoológico.
Tochtli (que significa coelho na língua asteca) é o filho único do chefe de um cartel de drogas mexicano chamado Yolcault (serpente em asteca). Os dois, rodeados de empregados e capangas violentos, vivem em uma espécie de fortaleza no meio do nada, isolados do contato com o mundo exterior, feito animais em uma toca.
Yolcault oscila entre a preocupação em preservar Tochtli da violência e da crueldade arbitrária e sem limites que permeia seus crimes e movimenta seus “negócios” e a vontade de treiná-lo (adestrá-lo?) para que seja o herdeiro natural de seu “império”. Em meio a isso, ele contrata um preceptor para o garoto, um homem culto que lhe traz conhecimentos e sana algumas de suas curiosidades, sempre contaminadas pelo que ouve, intui ou vê.
Dentro desse contexto, Tochtli tem enorme interesse por descobrir quais partes do corpo, caso sejam atingidas por tiro, propiciam uma morte mais rápida e desenvolve especial apreço pelos franceses por seu método de matar pela guilhotina e pelos samurais japoneses, que utilizavam poderosos sabres.
Yolcault fará todo o possível para atender o desejo de seu príncipe herdeiro, o que levará, por fim, a uma festa no covil luxuoso onde vivem.
Villalobos consegue algo singular em seu peculiar romance. O humor negro, banhado de inocência e brutalidade, produz um panorama inquietante sobre a violência do mundo do narcotráfico, traduzido pelos olhos inexperientes de um menino curioso que não sabe que encara o abismo.
A prosa de Villalobos é fluida e envolvente. O romance pode ser lido em poucas horas e nos deixa, por fim, perdidos em meio a um emaranhado de informações e sentimentos que mal damos conta de organizar.
Uma leitura diferente. Para quem gosta de experimentar estilos ousados e temas que flertam com o lado sombrio do ser humano – sórdido, patético e nefasto, para utilizar palavras que encantam Tochtli.
