Em 2018, a historiadora da arte Anne Lafont (1970-) deu uma palestra no Instituto Warburg. Dessa apresentação resultou um pequeno livro, “Uma africana no Louvre”, editado naquele mesmo ano.
Publicada no Brasil em 2019, a obra traz os resultados de uma cuidadosa investigação realizada pela autora francesa sobre o “Retrato de Madeleine”, quadro da artista parisiense Marie-Guillermine Benoist (1768-1826) integrado ao acervo do Louvre desde 1880.
Anne Lafont, uma das principais pesquisadoras da atualidade a investigar a representação do colonialismo e do corpo negro na cultura visual europeia, diz que decidiu dedicar a esse quadro um estudo monográfico por não ter feito justiça a ele em livro anterior, “L’art et la race” (sem tradução para o português).
Assim, em “Uma africana no Louvre”, Lafont apresenta os resultados de uma criteriosa pesquisa dedicada a desfazer o apagamento histórico da jovem retratada na tela.
A mulher que serviu de modelo para Benoist, afirma Lafont, se chamava Madeleine. Nascida em Guadalupe, colônia francesa, ela fora libertada da escravidão e trabalhava como criada para parentes do marido da pintora, em Paris.
Para chegar a essas conclusões, Lafont afirma que foi necessário cruzar dados sobre a pintora, sua família e círculo social. Vale lembrar que os registros da época sobre pessoas não brancas são escassos, quando não inexistentes, o que demanda rigorosa dedicação.
Esse processo de “descolonização do olhar”, ao qual se dedica a pesquisa de Lafont, teve efeitos notáveis na tarefa de devolver identidade e individualidade à modelo retratada por Benoist.
Em 1880, quando foi inicialmente exposta no Louvre, a tela se chamava Portrait d'une négresse (Retrato de uma negra), nome que prevaleceu até o ano 2000, quando foi alterado para Portrait d'une femme noire (Retrato de uma mulher negra). A mudança retirou o tom pejorativo do termo “négresse”, garantindo maior dignidade à modelo.
O trabalho de Lafont contribuiu decisivamente para a renomeação oficial da obra em 2019 – após a publicação do livro, portanto – por ocasião da exposição O Modelo Negro: de Géricault a Matisse, no Musée d'Orsay, cujo comitê científico contou com a participação da pesquisadora. Hoje, o quadro tem por título Portrait de Madeleine (Retrato de Madeleine).
Pesquisas como a de Anne Lafont evidenciam algo que nem sempre foi claro: as pessoas negras foram historicamente retratadas de maneira estereotipada e reduzidas à condição de objetos coloniais na arte europeia, e é preciso resgatar trajetórias e identidades.
“Retrato de Madeleine” não é apenas uma obra-prima de Marie-Guillermine Benoist. Ele revela a imagem de uma mulher com história, nome e subjetividade. Desse modo, Madeleine finalmente pôde entrar no Louvre, com sua altivez serena, protagonista de uma historiografia renovada.
