“Querida tia”, publicado originalmente em 2024 e traduzido para o português em 2025, é o quarto romance da escritora, roteirista e fotógrafa francesa Valérie Perrin (1967-).
Antes de estrear na literatura, Perrin tinha uma carreira consolidada como roteirista e fotógrafa de cena e trabalhava especialmente com o conceituado cineasta Claude Lelouch, com quem, aliás, é casada.
A bagagem cinematográfica e visual da escritora, hoje uma das maiores autoras de best-sellers da Europa, reflete-se em sua escrita, com cenas muito bem construídas, excelentes diálogos e descrições.
“Querida tia”, vale notar, tem como protagonista uma cineasta em crise criativa, recém-saída de um divórcio doloroso. Agnès tenta se reacomodar emocional e profissionalmente, quando recebe uma notícia inusitada: a morte de sua tia Colette que, por acaso, já havia morrido três anos antes.
Estamos em 2010. Em 2007, Agnès vivia em Los Angeles com o marido e a filha quando foi avisada por um velho amigo de Colette que sua única parente viva havia falecido durante o sono. Louis Berthéol opina, então, que não vale a pena se deslocar até o interior da França para o enterro. Três anos depois, Agnès está de volta a Paris quando recebe a ligação da polícia. É imprescindível que vá a Gueugnon, pequena cidade da Borgonha de onde veio a família Septembre e lugar onde ela passava as férias na infância e adolescência. Reconhecido o corpo, restam perguntas. Quem estaria enterrada no lugar de Colette Septembre? E por que a tia havia feito isso?
Berthéol, que havia cuidado do enterro de uma desconhecida no lugar de Colette, entrega a Agnès uma mala com inúmeras fitas cassete gravadas ao longo dos anos especialmente para a sobrinha. Ela deve ouvi-las para conhecer melhor a tia e os motivos que a levaram a agir assim.
Agnès se vê, assim, impelida a revisitar a trajetória da família e especialmente a de Colette – uma mulher que ela julgava não ter segredos ou mesmo uma história pessoal significativa. Ela era uma sapateira solteira que jamais saía de sua oficina e poucas vezes deixou o vilarejo.
A profunda investigação que Agnès fará do passado nos leva a um emaranhado de histórias e personagens que transitam por tempos e espaços distintos. Deve ser observado que Perrin tem enorme capacidade de conduzir o leitor por lugares e situações das mais diversas e inusitadas, sem jamais perder o controle narrativo.
“Querida tia”, apesar de algumas soluções “rocambolescas”, é um livro envolvente. Diferente de outros best-sellers, ele não segue fórmulas de thrillers de ação ou histórias de amor açucaradas. Aliás, faz um bom passeio por esses gêneros, mantendo certa originalidade na abordagem de temas universais. Talvez seja por isso que a autora tem conquistado alguns prêmios literários!
Adriana Teles
Pós-doutora em literatura pela USP. Escritora e autora de diversos livros, dentre eles, Machado e Shakespeare, Intertextualidades (2017), Íris Negra e Dez Minutos no Museu (2023)
@adriana_da_costa_teles
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QUERIDA TIA
Valérie Perrin
Editora: Intrínseca (2025)
Páginas: 496
Preço: R$ 53,90
