Ivan Turguêniev escreveu “Pais e Filhos” entre o fim de 1860 e o início de 1862. A Rússia passava, então, por uma série de reformas que culminariam em um decreto do czar em 1861, abolindo a servidão, regime que pouco se diferenciava da escravidão.
Esse período de mudanças profundas, que deu origem a organizações políticas clandestinas, movimentos intelectuais e a um clima de crescente tensão que eclodiria no assassinato do czar em 1881, está de algum modo presente no romance.
A ação de “Pais e Filhos” se dá no interior do país. Arkádi Nikoláievitch termina sua graduação na Universidade de São Petersburgo e retorna para casa. Leva consigo Bazárov, um amigo e uma espécie de mentor, um jovem médico, que se proclama niilista e afirma desprezar qualquer tipo de autoridade.
O pai e o tio de Arkádi ficam desgostosos com as ideias que se instalam na casa, o que delineará o conflito entre as diferentes gerações. Em meio a confrontos que colocam em xeque ideais e atitudes até então praticados, acompanhamos a potência transformadora da juventude em busca de fazer valer suas expectativas e visões de mundo.
Turguêniev dizia que criava personagens tendo como força motriz uma pessoa viva. No caso de Bazárov, a referência teria sido um médico de província que o autor conheceu em uma viagem de trem pela Rússia.
Esse sujeito encarnava o princípio niilista, que começava a nascer no país e ainda era pouco claro ao autor: ‘Em nenhuma obra literária eu havia encontrado nem sequer um sinal daquilo que agora pressentia em toda parte’.
Trata-se de um princípio que traduz o choque social, político e intelectual que abalava a Rússia daquele momento. Turguêniev percebeu que as reformas governamentais então propostas, longe de apaziguar o país, acelerariam a radicalização da juventude.
Os originais do romance, mostrados pelo escritor aos amigos, foram apontados como potencialmente polêmicos. Um deles chegou a aconselhar Turguêniev a destruí-los, caso não quisesse se tornar um autor maldito.
Após sua publicação, em 1862, seguiu-se, de fato, enorme polêmica. Estudiosos afirmam que seria a maior de que se tem notícia na literatura russa. O niilista Bazárov fez com que o termo, até então de uso restrito pela filosofia, se popularizasse no país.
Coincidência ou não, pouco depois do lançamento houve incêndios em São Petersburgo e levantou-se a hipótese de que seriam frutos de atentados. O romance e o próprio autor foram acusados de dar margem a eles.
Turguêniev talvez deixe evidente um traço que irmana os grandes escritores: a capacidade de captar e traduzir esteticamente o que está a seu redor. “Pais e Filhos” traz um retrato preciso da Rússia da segunda metade do século XIX e das ideias que alimentariam o processo revolucionário que desembocaria em 1917. É um clássico imperdível!
