“Os nomes” é o romance de estreia da escritora e blogueira britânica Florence Knapp. Lançado em 2025 na Inglaterra e publicado no Brasil em 2026, esse best-seller mundial, eleito livro do ano pelo Sunday Times, explora o destino de uma família sob o controle de um pai autoritário e cruel.
Estamos em 1987. Cora está presa em um casamento abusivo e acaba de ter seu segundo filho. A criança, de acordo com a tradição da família do marido, deveria se chamar Gordon. Mas Cora e Maia, sua filha de nove anos, resistem à ideia.
Maia quer um nome mais lúdico e gostaria que o irmão se chamasse Bear – urso em inglês. Já Cora busca algo que fuja da moldura paterna e aponte para um futuro autônomo e flexível, preferindo que o filho se chame Julian – “pai do céu”, segundo pesquisou.
O romance começa muito bem. O narrador explica a impressão sonora que Cora tem do nome Gordon: “a maneira como começa com uma ferida lascada que a faz pensar em balas quebradas, e termina com um baque surdo como alguém jogando uma mochila esportiva no chão”, uma descrição reveladora da dor causada pelo relacionamento.
O nome é mais do que uma designação para Cora. Gordon significa impor um significante indesejado ao filho, aprisionando-o a uma lógica masculina dominadora e violenta, ao passo que um nome que lhe soa mais leve o libertaria daquela cadeia (sonora) opressora.
Cora e Maia vão registrar o bebê, conversando sobre o nome que ele receberá e as preferências de cada uma. É a partir daí que a narrativa se divide em três sequências que correm paralelas – três linhas do tempo que mostram as consequências de cada escolha.
Na primeira situação, Cora segue a sugestão de Maia e registra a criança como Bear. Na segunda, Cora opta por Julian, opção descartada pelo marido. Na terceira, segue a tradição e lhe dá o nome de Gordon.
Knapp explora o efeito borboleta, conceito que descreve como pequenas alterações nas condições iniciais de um sistema dinâmico e complexo podem gerar consequências imprevisíveis e gigantescas no futuro. Ela aborda ainda a ideia de que o nome pode moldar traços psicológicos e sociais da pessoa, hipótese que vem sendo estudada pela ciência.
O romance cobre os 35 anos seguintes a cada uma dessas decisões. Knapp consegue segurar bem cada uma das histórias: personagens secundários em uma versão são relevantes em outra, as escolhas profissionais oscilam de acordo com as vivências, e os traços de personalidade são moldados pela carga emocional a que cada personagem é exposto.
“Os nomes” é um trabalho de artesão: uma costura de narrativas que se entrecruzam feito um patchwork. Aliás, isso é muito condizente com a trajetória de Florence, que, antes de se tornar escritora, ficou famosa pelo blog de costura e artesanato que mantém há mais de dez anos. Um livro fascinante.
