Agatha Christie (1890-1975) é um nome que não pode ser ignorado por aqueles que apreciam o romance policial. Afinal, a inglesa, que publicou mais de 70 livros, foi uma das responsáveis pelo desenvolvimento do gênero.
Antes dela, nomes relevantes incursionaram por esse tipo de narrativa. Destaco os experimentos intelectuais de Edgar Allan Poe com contos como “O mistério da Rua Morgue” e de Arthur Conan Doyle com as histórias de Sherlock Holmes.
Os romances de Agatha Christie apresentam, porém, uma ruptura com os experimentos que a antecederam.
Sherlock Holmes é um cientista altamente perspicaz que soluciona casos analisando evidências que poucos perceberiam. Os detetives de Christie – Hercule Poirot e Miss Marple, por exemplo – apelam para o lado psicológico na tentativa de compreender a natureza humana e suas motivações para o crime.
Agatha Christie faz uso da lógica e estabelece um compromisso com o leitor. As pistas para solucionar os crimes estão sempre presentes na história que funciona como um sofisticado quebra-cabeça.
Este é o caso de “Os Crimes ABC”, publicado em 1936. A autora contava, então, com 16 anos de carreira. Poirot, um detetive já famoso e maduro, é desafiado por um assassino em série a descobrir sua identidade.
O criminoso impõe uma espécie de jogo ao detetive belga, que recebe cartas antecipando cada crime e a cidade onde ocorrerá. Junto às vítimas, escolhidas por ordem alfabética, há sempre um Guia ABC com os horários de trens da Inglaterra.
Um assassino em série que escolhe suas vítimas de maneira gratuita era pouco comum na época. Seu perfil psicopático é algo inovador e encobre, como o leitor verá, um crime clássico e por motivações convencionais.
O livro explora o ego de Poirot – seu trunfo e seu ponto fraco. O serial killer consegue mexer com o detetive, que busca analisar, como um psicólogo, tudo e todos os que se relacionam de algum modo com os crimes.
Uma questão técnica curiosa é a presença de dois narradores: o Capitão Hastings, que acompanha Poirot, e um narrador onisciente, que acompanha Alexander Bonaparte Cust, o suposto assassino. Desse modo, a autora nos mostra como o ponto de vista pode regular a informação e manipular o leitor.
O romance dá margem a uma vasta gama de reflexões. A acusação contra Cust, um homem solitário e cheio de traumas, problematiza questões como justiça e preconceito social. A investigação policial expõe as falhas do sistema judiciário quando confrontado com o atípico, abrindo espaço para debates sobre responsabilidade moral, sensacionalismo midiático e justiça instrumental.
“Os Crimes ABC” é um livro excelente. Um mistério clássico. Sem pontas soltas. Elementos que se tornaram clichês nas narrativas policiais tiveram origem em obras assim, que foram originais e pioneiras. Recomendo!
