Rachel de Queiroz, escritora cearense nascida em 1910, ganhou destaque na literatura brasileira com apenas 20 anos, quando publicou “O Quinze”, em 1930. De família de letrados, ela recebeu educação privilegiada com acesso a livros, arte, música, ensino de línguas. Começou a escrever e a publicar cedo.
O romance, uma narrativa profundamente dramática ao expor a luta de um povo contra a miséria e a seca, foi recebido com elogios quanto ao conteúdo, mas com ceticismo no que diz respeito à autoria. Ora, quem publicava era uma jovem. E, para os leitores e críticos, não era plausível que, além de jovem, uma mulher escrevesse com tanta habilidade sobre um tema pouco romanesco.
Veja as expectativas que se tinham para com o feminino, na época, inclusive por parte dos intelectuais brasileiros! O escritor Graciliano Ramos, contemporâneo de Rachel de Queiroz, foi um dos que se manifestaram a respeito: “Seria mesmo uma mulher? Não acreditei.”
“O Quinze”, cujo título refere-se à grande seca de 1915, narra o drama vivido pelos moradores do interior do Ceará, o êxodo de trabalhadores da região de Logradouro e de Quixadá em direção à capital, Fortaleza, onde esperavam encontrar meios para sobreviver. Perceba que não estamos falando da busca por uma “vida melhor”, mas, sim, por meios que garantissem a sobrevivência.
Há, no romance, uma história de amor que corre em paralelo ao drama dos retirantes: o namoro entre a professora Conceição e o proprietário rural Vicente. Mas essa trama é secundária. O foco é a situação dramática vivida pelos habitantes daquela localidade, em especial a história da família de Chico Bento, que, por causa da miséria e da falta de recursos, parte com os filhos pequenos a pé da cidade de Quixadá até Fortaleza. A ideia era, então, conseguir chegar ao Amazonas e trabalhar nos seringais.
Conceição é uma personagem feminina que foge aos padrões da época. Sua postura e atitudes práticas questionam padrões de comportamento que são atribuídos a seu gênero. No contexto sócio-histórico em que ela está inserida, seus costumes e até sua posição política são considerados intrigantes e, eventualmente, tornam-se alvo de discussões entre seus familiares. Eram posturas inesperadas diante das opressões causadas pela estrutura patriarcal que predominava fortemente naquele espaço, impregnado pelos costumes oitocentistas.
“O Quinze” não deve ser esquecido. Quem me acompanha sabe que sou fã dos clássicos. Eles sempre têm o que nos dizer. Neste caso, há toda a agrura da seca e da vida difícil que ela impõe, além da iniciativa de uma jovem escritora que fugiu dos clichês das histórias de amor em meio a uma natureza tão severa, que inspirava outro tipo de narrativa e reflexão. Vale a pena ler!
