Joseph Conrad (1857-1924) nasceu na Ucrânia, então parte do Império Russo, filho de pais poloneses. Na juventude, naturalizou-se britânico e tornou-se profissional da marinha.
No final dos anos 1880, com o título de capitão da Marinha Mercante Britânica, foi contratado por uma empresa belga para comandar um navio a vapor no rio Congo. Embora o contrato previsse 3 anos, ele permaneceu 6 meses na África; gravemente doente, teve de retornar à Europa.
As inúmeras ideias e anotações que levou para Londres seriam utilizadas para escrever “Coração das Trevas”. Publicado em 1902, o aclamado romance se tornaria mundialmente conhecido como uma obra complexa, ambivalente e aberta a muitas perspectivas de leitura.
À beira do Tâmisa, o capitão Marlow, espécie de alter ego de Conrad, narra sua perturbadora viagem ao Congo, onde deveria assumir o comando de um navio a vapor. À medida que avança pelo rio, a viagem geográfica se transforma em uma descida psicológica aos horrores do colonialismo e da degradação humana. A jornada atinge seu ápice na missão de resgate de Kurtz: um brilhante e outrora idealista agente comercial europeu que, isolado na selva, sucumbiu à megalomania e à loucura.
O romance incomodou profundamente a elite europeia ao servir como denúncia feroz contra o imperialismo. “Coração das Trevas” fazia um alerta sobre o que estava sendo feito na África e expunha a hipocrisia de todo um discurso. A ideia de levar progresso à região escondia a ganância, a tortura, a barbárie e o roubo de marfim.
“Coração das Trevas” foi um dos primeiros golpes literários contra a hipocrisia do projeto colonial europeu. Porém, a recepção ao romance tem um divisor de águas. Em 1977, o professor nigeriano Chinua Achebe publicou o artigo “Uma Imagem da África: Racismo no 'Coração das Trevas' de Conrad”, em que faz uma crítica feroz ao autor e o definia abertamente como "racista".
Para Achebe, Conrad não demonstra, no romance, interesse pela África ou pelos africanos, mas usa o continente como pano de fundo estético e sombrio em contraponto à Europa. Conrad negaria expressão humana aos africanos, retratando-os como uma massa homogênea e bruta, o que evidenciaria o medo do homem branco de enxergar no africano um ser humano igual a si. Achebe critica o próprio sistema literário ocidental, que continuaria a celebrar como obra-prima psicológica um texto que desumaniza e degrada uma parte inteira da humanidade.
Hoje, a obra é vista como um paradoxo vivo. Se por um lado constitui uma crítica contundente ao imperialismo econômico, por outro é um produto inegável do preconceito eurocêntrico de sua época.
Polêmico, “Coração das Trevas” é impactante e atual, seja por sua temática, seja pelo tipo de debate que suscita. Um clássico que nos permite mergulhar nas nossas trevas, no mais amplo sentido em que podemos conceber o termo!
