“Noites das Mil e Uma Noites”, romance do escritor egípcio Naguib Mahfouz (1911-2006), é um livro bastante curioso. Como o título deixa ver, ele retoma um referencial que é parte da memória afetiva e da história do Egito, país que, aliás, teve papel central em sua preservação: os contos de “As Mil e Uma Noites”.
Fusão do folclore persa, indiano e árabe, esse clássico oriental ganhou a versão que conhecemos hoje a partir do Egito medieval. Aliás, a primeira versão impressa oficial no mundo árabe foi publicada no Cairo, em 1835 – cidade onde se passa parte substancial das narrativas.
Mahfouz inicia “Noites das Mil e Uma Noites” exatamente no ponto em que a coletânea oriental termina. Estamos na manhã seguinte àquela em que o Sultão Shariar decide poupar a vida de Sherazade e tomá-la como sua esposa definitiva.
O que lemos, porém, não é um convencional desfecho feliz. Shariar está arrependido e atormentado pela culpa do assassinato de inúmeras mulheres. Sherazade, por sua vez, o aceita por dever e sente horror e desconfiança pelo homem que derramou tanto sangue.
É a partir desse cenário que a narrativa de Mahfouz se expande para as ruas de uma cidade islâmica sem nome que bem poderia ser o Cairo antigo. Sherazade e o Sultão passam, então, a ocupar posição secundária na trama. Em primeiro plano estão as histórias que acompanham figuras das camadas populares da cidade ou membros do segundo escalão do poder.
Mahfouz constrói uma teia de histórias interligadas, focadas em personagens que convivem com gênios mágicos, prontos a sair de garrafas para realizar desejos e transformar, por vezes para pior, a vida daqueles com quem se deparam.
Veja que, além de homenagear o clássico árabe, Mahfouz faz uma alegoria política. O reino de Shariar, repleto de corrupção, ganância e vaidade, funciona como um microcosmo social que ironiza instituições políticas frágeis, ineficientes e injustas.
Os gênios, por sua vez, servem como catalisadores morais e psicológicos – testam os indivíduos feito demônios internos atentos à fragilidade moral dos seres.
“Noites das Mil e Uma Noites” coloca seus personagens em uma dimensão mística e existencial, especialmente no que se refere ao sufismo, vertente filosófica do Islã que se volta para a purificação dos sentimentos e a busca por verdades íntimas.
O verdadeiro caminho para a libertação dos personagens – presas não só de gênios, mas de suas próprias fraquezas – está em uma reforma ética e íntima que reverbera na dimensão social e política.
Um livro fascinante que mostra a engenhosidade de Naguib Mahfouz, vencedor do Nobel de Literatura de 1988. Em “Noites das Mil e Uma Noites”, ele nos faz circular por um mundo remoto, como um sonho repleto de magia, ironia e muita imaginação. Excelente!
NOITES DAS MIL E UMA NOITES
Naguib Mahfouz
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 256 (2008)
Preço: 80,00 (Em sebos virtuais, a partir de 20,00)
