"Autobiografia do Vermelho" é um dos livros mais aclamados da escritora, helenista e poeta canadense Anne Carson (1950), vencedora do Nobel de Literatura de 2026.
A obra, um romance em versos, foi publicada originalmente em 1998 e é conhecida por romper fronteiras literárias, ao transitar entre a poesia, a filosofia e o ensaio crítico, criando uma narrativa fluida e imagética.
O livro de Carson é uma recriação contemporânea do mito de Gerião. Na mitologia grega, ele é um ser monstruoso que vivia em uma ilha e foi morto por Héracles (ou Hércules), em seu décimo trabalho.
Carson buscou nos fragmentos do poema lírico “Gerioneida”, de Estesícoro (VII-VI a.C.), a gênese de sua criação. O poeta grego foi um dos primeiros a tentar humanizar o monstro e dar voz a uma perspectiva divergente daquela que a tradição consolidava.
O livro traz passagens líricas arrebatadoras e pode ser compreendido como um romance de formação: “Na sétima / série ele havia feito / um trabalho de ciências sobre essa preocupação. / Foi no ano em que ele começou a se perguntar sobre o / barulho que fazem as cores. As rosas vinham / rugindo em sua direção pelo jardim. / De noite ficava deitado na cama ouvindo a luz prateada das / estrelas golpeando / a janela telada. A maioria / das pessoas que entrevistou para o trabalho de ciências teve / de admitir que não ouvia / os gritos das rosas.”
"Autobiografia do Vermelho" nos leva a acompanhar Gerião desde a infância. O monstro mitológico dá lugar a um menino suburbano contemporâneo, profundamente sensível, solitário, cujas asas vermelhas tenta a todo custo ocultar sob as roupas.
Na adolescência, Gerião conhece Héracles, um jovem de temperamento intenso por quem se apaixona perdidamente. O envolvimento amoroso e a rejeição posterior moldam o seu amadurecimento doloroso.
A dificuldade de Gerião em se comunicar com o mundo e expressar sua "monstruosidade" faz com que adote a fotografia na composição de uma autobiografia visual. No início da idade adulta, ele começa a trabalhar em uma biblioteca: “Os bibliotecários acham-no / um rapaz talentoso com um lado obscuro. Certa noite / durante a janta quando sua mãe / lhe perguntou / como eles eram, Gerião não conseguiu se lembrar se os / bibliotecários eram homens / ou mulheres. Ele havia batido algumas / fotografias cuidadosas mas estas mostravam apenas os / sapatos e as meias de cada pessoa.”
A narrativa de Anne Carson aborda com sensibilidade a alteridade e o desejo, tornando-se um marco da literatura contemporânea e objeto frequente de análises sob a perspectiva da ressignificação dos monstros clássicos.
"Autobiografia do Vermelho" é um livro que provoca o leitor, seja pela linguagem, seja pela forma ou pelo conteúdo. Vale a pena ler!
Adriana Teles
Pós-doutora em literatura pela USP. Escritora e autora de diversos livros, dentre eles, Machado e Shakespeare, Intertextualidades (2017), Íris Negra e Dez Minutos no Museu (2023) @adriana_da_costa_teles youtube.com/@literaturafalada1014

