Sempre apreciei a escrita de Virginia Woolf (1882-1941). Escritora inglesa de vanguarda, ela se consolidou no período entreguerras e rompeu radicalmente com as convenções narrativas e sociopolíticas de sua época.
Seu estilo irreverente se manifesta em diferentes frentes. A revolução estética por meio do fluxo de consciência é uma delas. A escritora inglesa rejeitou o realismo tradicional do século XIX. Sua “verdade narrativa” estava na vida interna das personagens.
Em uma época guiada pelos rígidos padrões vitorianos, Woolf soube explorar a fluidez de gênero de forma muito pessoal. Sua postura crítica, especialmente no que diz respeito à condição feminina, fez com que questionasse abertamente paradigmas de comportamento.
A escrita de Woolf é marcada pela insurgência contra o status quo, seja em termos teórico-críticos, seja na escolha e abordagem de temas e situações.
“Mrs. Dalloway”, obra que talvez melhor sintetize sua ousadia, foi publicada em 1925. Questionando-me sobre o que Virginia Woolf teria a nos dizer hoje, percebo que essa obra ainda ressoa sua lucidez desconcertante.
O romance destaca Clarissa Dalloway, cujos passos, pensamentos e percepções seguimos ao longo de um único dia. A obra é construída, porém, a partir de um espelhamento com a trajetória de Septimus Warren Smith, um veterano da I Guerra que sofre com o que chamamos hoje de estresse pós-traumático.
A grande questão que assola o jovem Septimus é o descompasso entre seu sofrimento interno – ele está fisicamente bem – e a incapacidade da ciência e da sociedade de compreender sua condição.
Se o veterano viveu a guerra e a violência, a senhora Dalloway é uma mulher cuja vida parece perfeita. Clarissa ocupa-se com os preparativos para uma bela festa. Ela escolhe flores ao passo que Septimus encara o abismo.
Clarissa não é uma mulher alienada das questões de seu tempo. Pelo contrário. Ela é uma personagem que caminha em uma linha tênue de questionamentos sobre suas escolhas e a gratuidade de seus dias. O trivial e o profundo coexistem em sua trajetória, simultaneamente.
Muito embora o tempo cronológico se mostre rígido – o badalar do Big Ben é constante – o tempo das memórias e das emoções é fluido e não obedece a essa lógica, o que sinaliza questões cruciais da contemporaneidade, como as de produtividade e urgência.
“Mrs. Dalloway” fala sobre nossa (des)conexão com o todo e o que significa ser são em um mundo que parece sem sentido, expondo os universos íntimos, as fendas intransponíveis e as brechas abissais que parecem impossíveis de serem preenchidas.
“Mrs. Dalloway” nos convida a refletir sobre a imagem que ostentamos e o que se oculta por trás de cada face. Uma leitura imperdível.
