Como lidar com a obra que admiramos produzida por pessoas que fizeram coisas monstruosas e, em casos extremos, criminosas? Quais pesos e medidas devemos utilizar para equalizar o senso moral e o amor à arte?
Pablo Picasso manteve relacionamentos abusivos com suas esposas e amantes. Agrediu Dora Maar a ponto de deixá-la inconsciente várias vezes. Apagou um cigarro no rosto de Françoise Gilot para “baixar seu orgulho”.
Roman Polanski, conceituado cineasta, foi condenado pelo estupro de uma menina de treze anos. Woody Allen foi acusado por sua filha adotiva de tê-la molestado sexualmente e começou a se relacionar com Soon-Yi Previn, filha de sua companheira Mia Farrow, quando ela estava no ensino médio.
No que diz respeito a escritores, a reputação de Ernest Hemingway o precede e o conecta à violência. Gostava de touradas na Espanha e de caçadas na África. Batia nas esposas e nos filhos. Ah... nos amigos também!
A Nobel de Literatura Doris Lessing abandonou os dois filhos mais velhos na Rodésia do Sul, então colônia Britânica, e partiu para Londres levando apenas o filho mais novo e o manuscrito de seu primeiro romance, “A Erva Canta”. A escritora feminista Valerie Solanas tentou matar Andy Warhol.
Esses são apenas alguns exemplos de artistas e escritores cujas produções encantam e cujos atos assustam. A questão é complexa e é nela que se lança a escritora, jornalista e crítica cultural norte-americana Claire Dederer (1967-) no livro “Monstros: o dilema do fã”, publicado em 2023 nos EUA e, em 2025, no Brasil.
Dederer parte de um embaraço pessoal que, em um século pautado pela superexposição e pela cultura do cancelamento, tem aflorado com força. Afinal, a máxima de que é possível separar artista e obra tem se mostrado cada vez mais frágil e delicada.
O livro, que apresenta uma linguagem fluida e se estende feito uma longa conversa com o leitor, fundamenta-se em extensa pesquisa e reflexão. O mais curioso, eu diria, é que a obra não é sobre artistas, mas sobre nós – o público.
A grande questão tratada em “Monstros: o dilema do fã” repousa nos porquês de continuarmos gostando do que produzem aqueles cujo comportamento reprovamos.
O livro, que traz como epígrafe uma frase de Clarice Lispector: “Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”, se volta para o nosso íntimo. Segundo Dederer, quando deu início às suas reflexões, ela acreditava que o conflito se resolvia na grandeza da obra que se equilibrava em meio à ruindade do ato/crime.
Ela descobriu, porém, que a maneira como se responde à questão é subjetiva e pessoal. A resposta está arraigada na emoção que obra/ato(s) suscitam em cada um e que se relaciona com a vivência de quem a aprecia.
Esse será o ponto crucial que permeará as 350 páginas desta obra. Uma boa reflexão sobre uma questão muito presente. Recomendo!
