O poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999) era parte do corpo diplomático brasileiro e serviu em Barcelona de 1947 a 1950. Lá, ele conheceu o pintor catalão Juan Miró. Na época, João Cabral já era um poeta publicado e circulava nos meios artísticos e intelectuais. Miró era um artista celebrado e estabelecido.
O período era historicamente delicado. A Espanha estava sob o regime fascista de Franco e os artistas e intelectuais viviam um clima de angústia e opressão. Miró e sua obra eram considerados inimigos do governo. Acredita-se que a chegada de João Cabral a Barcelona levou renovação ao meio artístico e eventualmente vida nova a Miró, que era 25 anos mais velho do que o poeta brasileiro.
A amizade com Miró inspirou Cabral a compor pelo menos um poema, “Campo de Tarragona”, que está em “Paisagem com figuras”. Mas não é só isso. A admiração pela pintura do catalão fez surgir um texto arduamente trabalhado por João Cabral, em que expõe a maneira como compreende a pintura do artista. Trata-se de “Miró”, publicado em 1950, em Barcelona.
Juan Miró acompanhou de perto a edição do livro e forneceu uma gravura para a capa. Com tiragem de 130 exemplares, essa primeira edição é uma relíquia disputada por colecionadores.
“Miró” foi editado várias vezes. A última é da Verso Brasil, de 2018, que traz a reprodução de uma página do original, além das gravuras cedidas por Miró. Fotos do poeta e do pintor em Barcelona ajudam a compor a edição.
A composição do livro foi extenuante, nos dizeres de João Cabral, tamanho seu envolvimento com o texto. Na época, ele trabalhava em “O cão sem plumas”, que acabou deixando de lado por um tempo.
Em “Miró”, Cabral traça um paralelo entre a pintura do artista catalão e a renascentista, destacando o enorme avanço que esta última representou para a arte. Foi quando surgiu a noção de perspectiva, um marco de grande relevância.
Porém, para o poeta, ao mesmo tempo em que representou um ganho enorme, o avanço teria um lado negativo ao subordinar o observador a determinada perspectiva óptica — a que é escolhida pelo artista.
O observador passou a esperar, assim, determinado padrão artístico. A grande contribuição de Miró estaria em romper com isso, ao se libertar da perspectiva e da maneira tradicional de representação: sua obra “me parece nascer da luta permanente, (...), para limpar seu olho do visto e sua mão do automático”. A arte de Miró exige o olhar participativo e dinâmico do observador: “Miró não pinta quadros. Miró pinta”.
“Miró” é um livro interessantíssimo. Um texto para quem gosta de João Cabral. Para quem gosta das artes plásticas. Para quem gosta de uma boa história, como essa amizade a princípio inusitada e tão curiosa. Se você quiser saber mais sobre o livro, acesse o QR code!
