Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) integrava o grupo de escritores e intelectuais que idealizou a Academia Brasileira de Letras. Seu nome constava na primeira lista dos 40 “imortais”. Porém, foi excluído na primeira reunião da ABL. Os fundadores optaram por mantê-la masculina. O nome de Júlia deu lugar ao de seu marido, Filinto de Almeida.
O dado é significativo e já aponta para o papel relevante que essa autora carioca teria na construção de uma história de escritoras brasileiras. Relegadas ao segundo plano, mulheres como Júlia Lopes não desistiram de escrever e transmitir suas percepções de mundo em forma de livro.
Romancista, teatróloga e abolicionista, Júlia publicou mais de 30 livros. “Memórias de Marta”, seu primeiro romance, foi publicado em folhetim e em 1889 surgiu em livro. Trata-se de uma obra que ganhou destaque nos últimos tempos ao ser selecionada como leitura obrigatória para o vestibular da Fuvest, iniciativa que traz luz a nomes preteridos e não os deixa ser esquecidos.
“Memórias de Marta” é um livro que traz a luta de duas mulheres, mãe e filha, ambas de nome Marta, para sobreviverem sozinhas. A família da protagonista tinha uma condição financeira próspera até que seu pai, um caixeiro-viajante, comete suicídio após ser injustamente acusado de roubo.
Mãe e filha são despejadas e vão morar em um cortiço. Para sustentar as duas, a mãe começa a trabalhar lavando e engomando roupas. Passam os dias comendo pão e tomando café ralo. A menina quer estudar, mas quando atinge idade escolar não tem roupas para ir às aulas.
A situação muda quando uma freguesa – mãe de Lucinda, uma criança da idade de Marta – doa roupas da filha para a garota. A cena será rememorada em detalhes ao longo das memórias da protagonista. Na casa de Lucinda, diante de um belo espelho que reflete sua imagem e a da colega, Marta se dá conta da enorme distância que as separa.
A jornada nos estudos será transformadora para a protagonista. Na escola, seu empenho renderá uma bolsa de estudos que, no futuro, garantirá um cargo como professora efetiva, o que lhe assegura uma subsistência digna.
O romance traz mulheres de vida dura, mas independentes. Marta consegue autonomia intelectual e financeira. É certo que ela não consegue fugir do seu “destino de mulher” e se casa, por influência da mãe, com Miranda, um homem menos instruído do que ela.
“Memórias de Marta” é um livro importante para que se possa compreender a transição entre o século XIX e o XX sob a ótica feminina. É um romance que fala sobre educação, emancipação, desigualdade social, patriarcado, melancolia, amadurecimento. A obra está disponível online. Há uma versão digitalizada pela biblioteca da USP que você encontrará facilmente em seu site de busca. Vale a pena conhecer!
MEMORIAS DE MARTA
Júlia Lopes de Almeida
Editora: Penguin & Companhia das Letras / 2024
Páginas: 136
Preço: R$ 31 (Disponível em Domínio Público)
