Há poucos dias, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, recebeu amplo destaque na mídia. Publicada em 1880, a narrativa liderou a lista dos mais vendidos da Amazon dos EUA, na categoria Literatura Latino-Americana e Caribenha.
Tudo começou quando a escritora estadunidense Courtney Henning Novak viralizou no Tik Tok ao contar a sua experiência de leitura de “Memórias Póstumas”, livro, segundo ela, sem igual: “Por que vocês não me avisaram que era o melhor livro já escrito?”. E foi assim que um escritor gago e de origem humilde, nascido na periferia do Rio de Janeiro do século XIX, se tornou autor de um best-seller global.
É claro que não precisamos que estrangeiros nos digam que Machado de Assis foi um dos maiores escritores do Ocidente ou que “Memórias Póstumas” é leitura obrigatória para os que apreciam literatura. Mas é uma oportunidade para que nos lembremos do legado do escritor, cada vez mais lido no exterior.
Machado foi um grande autor e um grande leitor. Homem culto e atento a seu tempo, ele trouxe suas leituras para seus textos. Dialogou, assim, com os mais diferentes autores e obras da literatura: Cervantes, Camões, Shakespeare. Trouxe a Bíblia para seus textos. A mitologia grega. As notícias do seu tempo. Foi capaz de repensar o que era produzido na época. Compôs teatro, poesia e crônicas. Desenvolveu o conto, aprimorou o romance. No último, inovou nas temáticas e nos procedimentos técnicos.
Muito disso pode ser encontrado em “Memórias Póstumas”, narrativa que marcou a viravolta machadiana, momento em que dá um salto na maneira de conceber a narrativa.
O romance incita o desconforto. As “Memórias”, gênero tradicionalmente cultuado e valorizado, são “póstumas”, o que desafia as expectativas do leitor. E o narrador, um certo Brás Cubas, começa por narrar a própria morte, colocando em evidência o caráter absolutamente ficcional do texto, lembrando-nos da artificialidade das narrativas que lemos (conceito que seria ampliado, aliás, na pós-modernidade).
Os capítulos são curtos, estimulam a leitura. E por meio deles acompanhamos a história de um sujeito pouco afeito ao trabalho, mas amante dos benefícios do dinheiro e do poder que propicia. Alguém que quis algumas coisas da vida, mas realizou bem pouco. Brás Cubas quase se casou, quase foi ministro, quase inventou um emplasto milagroso.
Ouviu como últimas palavras da mãe uma frase de sabedoria jocosa: “A vida é uma loteria”. Não deixou filhos, mas deixou a narração de seu delírio, uma viagem à origem dos tempos, à natureza primeira, que lhe diz ser sua mãe e madrasta.
Courtney Novak se pergunta, no Tik Tok, o que fará do resto de sua vida, quando o livro acabar. Exageros à parte, vale muito a pena ler ou reler o texto e tirar as próprias conclusões.
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
Machado de Assis
Editora: Penguin/Companhia das Letras
Páginas: 368
Preço: 49,90
Disponível em Domínio público.
