“Léxico familiar”, de Natalia Ginsburg (1916-1991), é, como disse Ettore Finazzi-Agro no posfácio à edição da Companhia das Letras, uma história particular de pequeninos nadas.
Publicado originalmente em 1963, esse livro de memórias dá conta da juventude da autora. Compreende desde sua infância até o seu segundo casamento, em 1950, período que abrange momentos cruciais da história do século XX.
A narrativa surge, assim, à luz do entre guerras, em meio à ascensão de Mussolini e do fascismo, na Itália, perpassa a II Guerra Mundial e adentra nas sombras do pós-Guerra. É em meio a esse contexto que aflora a história da família Levi.
Compõem a família Giuseppe Levi, famoso anatomista, histologista e biólogo, Lidia Levi e seus cinco filhos, Paola, Alberto, Mario, Gino e a caçula, Natália Levi, que se tornou Ginsburg, em 1938.
Natália se casou com o professor e editor de origem russa, Leone Ginsburg, perseguido pelo regime fascista, morto em 1944, nas prisões italianas. Apesar de a escritora ter ficado viúva aos 28 anos de idade, com três filhos pequenos, evento dramático, violento e arbitrário, sua opção é abordar o fato de passagem.
O autoritarismo e a opressão surgem, assim, como pano de fundo para o cotidiano de sua família. Pessoas de bem, com seus hábitos e manias, um cotidiano comezinho e quase banal, que contrasta com o fanatismo, a brutalidade e a arrogância que ameaçam a todos.
A família Levi era judia e socialista, duas manchas aos olhos do poder fascista. A narrativa nos faz acompanhar a prisão de todos os seus representantes masculinos além do exílio de Mário, em Paris, e de seu primeiro casamento com Jeanne Modigliani.
Anos antes, Paola havia se casado com o industrial Adriano Olivetti, intelectual e mecenas, considerado um visionário no que diz respeito ao desenvolvimento social. Aliás, em meio à família, circulam amigos que viriam a ser significativos nos meios intelectuais, antifascistas e no cenário político e cultural do pós-Guerra no país.
Dentre eles, estão o poeta e romancista Cesare Pavese, o pintor e escritor Carlo Levi, o historiador Luigi Salvatorelli e Giulio Einaudi, um dos mais importantes e influentes editores italianos do século XX, filho do segundo presidente da República Italiana pós-fascismo.
“Léxico familiar” coloca em cena o público e o privado e os faz interagir de maneira profundamente significativa. Seu conteúdo transita entre o sociológico, o histórico e o antropológico. É um documento ético, histórico e estético.
O livro consegue o inimaginável. Ser denso e leve ao mesmo tempo. Com os trajes da diversão e do entretenimento, provoca nossos sentimentos e reflexões, os mais profundos, e adentra nossa alma intensamente. Leitura surpreendente. Recomendo!
