“Heróis demais”, publicado originalmente em Bogotá, em 2009, é uma obra central da maturidade literária da escritora, poeta e jornalista colombiana Laura Restrepo (1950-).
Com forte atuação no jornalismo, Restrepo tem uma prosa intensa e precisa, em “estilo reportagem”, como ela própria define sua escrita. Suas narrativas utilizam fatos históricos e documentos reais como alicerces para histórias densas e psicológicas.
Em “Heróis demais”, Restrepo contrapõe dois tempos cuidadosamente escolhidos, o que permite ao leitor refletir sobre fatos e personagens por uma perspectiva histórica.
Estamos no final dos anos 1990, Lorenza e o filho Mateo viajam para Buenos Aires. O objetivo é encontrar o pai do rapaz, Ramón, que desapareceu de suas vidas depois do “lance obscuro” – o sequestro de Mateo ainda pequeno em uma tentativa criminosa de reatar o relacionamento fracassado com a esposa.
Lorenza e Ramón viveram um romance no período da ditadura militar na Argentina, que ocorreu entre 1976 e 1983. Ambos eram militantes políticos clandestinos. Apesar da atração apaixonada que os aproximou – e deu origem a Mateo – a tensão e a insegurança que predominavam no período os faziam calar-se até mesmo sobre si próprios.
Quando o inimigo enfraqueceu e eles partiram em direção a Bogotá, o relacionamento se esvaziou. O silêncio e o vazio passaram a ocupar um enorme espaço entre eles. Lorenza e Ramón terminaram por não saber o que fazer de si mesmos e de sua história juntos. Foi quando ela decidiu romper o relacionamento.
Mateo não se lembra do pai e quer, não apenas encontrá-lo, mas saber sobre sua pessoa – aparência, hábitos, traços de personalidade. Lorenza, porém, tem dificuldades em falar sobre o ex-marido como um homem de carne e osso; há um vácuo impossível de ser preenchido.
Lorenza descreve o passado com nostalgia e alguma ironia. Sua complacência com o que viveu encontra resistência na impaciência de Mateo, que está mais interessado em jogos de videogame e em decifrar a própria história. Ele está cansado de conviver com o fantasma do pai e de estar no centro de acontecimentos que ele tem dificuldade em compreender.
“Heróis demais” flerta com o romance policial. A busca clássica do filho por seu pai e o “lance obscuro”, elemento fulcral da narrativa, mimetizam a resolução de um mistério. Lorenza e Mateo recompõem a história familiar a partir do interrogatório insistente do jovem, que exige pormenores do passado, aponta inconsistências e mostra-se atento a cada incoerência.
O romance traz a tensão e a agilidade de um thriller. A clandestinidade e a violência do passado conferem um tom noir à história. Trata-se de uma atmosfera de suspense que mantém o leitor envolvido em uma busca que será, por fim, um acerto de contas emocional com o passado.
“Heróis demais” é original e instigante. Recomendo!
