“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” (2005) é um dos muitos livros publicados por Marçal Aquino (1958-). Jornalista, escritor e roteirista, esse autor, que iniciou sua carreira nos anos 1980 – publicou “A Turma da Rua Quinze”, na coleção Vagalume, em 1989 –, é hoje um nome consolidado em nossa literatura.
“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” nos traz uma história de amor conturbada. O cenário é uma cidade do interior do Pará, cuja economia gira em torno da mineração e que enfrenta fortes e crescentes tensões entre os garimpeiros e aqueles que controlam a exploração de minérios no local.
Cauby e Lavínia, os protagonistas, são forasteiros. Ela é casada. Ele é um fotógrafo paulistano de meia-idade, solteiro, apreciador de cinema e música clássica, que passa uma temporada na cidade a fim de produzir um livro financiado por uma agência francesa.
Lavínia tem pouco mais de vinte anos e um passado de violência e privações. Após sofrer sucessivos abusos do padrasto, fugiu de casa, no interior do Espírito Santo, em direção à capital, onde se envolveu com drogas e ganhou a vida como prostituta. Em Vitória, conheceu o marido, Ernani, um pastor evangélico 38 anos mais velho que ela, a quem acompanha em missão no interior do Pará.
A história de amor e adultério é tensa e se situa no campo do desconforto. Aquino aborda com intensidade questões como solidão, violência e melancolia, aspectos característicos de sua obra.
O romance é dividido em quatro partes – “O amor é sexualmente transmissível”, “Carne-viva”, “Postais de Sodoma à luz do primeiro fogo” e “Poema escrito com bile” – e tem dois narradores. O de “Carne-viva” é onisciente e conta a história pregressa de Lavínia. O das outras três partes é Cauby, que, num tempo posterior aos fatos ocorridos, conta os tormentos de uma paixão que o uniu de maneira irreversível a uma mulher que o fascina e o leva à ruína.
O universo retratado no romance retoma muitas das mazelas do Brasil contemporâneo, tanto no plano coletivo (condições de trabalho precárias e miséria da população urbana) quanto na caracterização das personagens centrais.
“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” é uma narrativa de ritmo ágil que transita pelo jornalismo. Um romance que se volta para o periférico na elaboração de uma literatura com forte apelo ao real e ao cotidiano de violência, desigualdades e privações, característicos da sociedade brasileira.
Essas questões, ao que parece, provocam escritas de traçado forte, como as de Aquino e de outros escritores que se consolidaram na década de 1990 – algo que parte da crítica tem chamado de hiper-realismo e que é associado às práticas acadêmicas e profissionais de seus escritores. Um romance bastante interessante para quem aprecia certa atmosfera noir!
