“Desonra” (1999) é o romance mais aclamado do escritor sul-africano J. M. Coetzee (1940-), laureado com o Nobel de Literatura em 2003. É também o mais controverso.
Como costuma ocorrer com a grande literatura, a narrativa, ambientada na África do Sul pós-Apartheid, espelha o complexo e o contraditório dos fatos do mundo, não oferece soluções fáceis, tampouco simplistas.
O romance expõe as feridas abertas do país por meio da derrocada de um professor universitário de meia-idade: David Lurie, que dá aulas de poesia na Universidade do Cabo. Aos 52 anos, divorciado e academicamente entediado, ele se envolve com uma aluna. O relacionamento é problemático e o leva a ser denunciado à reitoria da instituição.
Lurie se recusa a pedir desculpas públicas e não se submete ao julgamento moral do comitê universitário. A opção por se demitir o leva a buscar refúgio na propriedade rural de Lucy, a filha que teve com a ex-esposa holandesa.
O professor ainda se adaptava ao campo quando a aparente calmaria daquela vida – dedicada ao cultivo da terra e ao cuidado com os animais – foi rompida por um violento ataque de três homens locais. É necessário, então, lidar com mais uma crise que mobilizará reflexões éticas, morais e sociais.
Especialista em poesia romântica, em especial Wordsworth e Byron, Lurie percebe que a linguagem poética e acadêmica se revela inútil e falha diante da violência crua e das barreiras culturais.
Coetzee tem estilo preciso e objetivo. Sua formação é frequentemente apontada pelos críticos como decisiva nesse quesito. Ele cursou filologia inglesa e matemática, foi programador de computadores da IBM nos anos 1960, na Inglaterra, e defendeu tese sobre Samuel Beckett nos EUA.
Suas tramas intrincadas, por sua vez, poderiam refletir o ambiente culturalmente complexo em que cresceu. Coetzee nasceu na África do Sul pré-Apartheid. De ascendência bôer e, portanto, um africâner, teve criação predominantemente anglófona, o que o tornou uma espécie de estrangeiro em sua própria terra.
Afinal, os bôeres, descendentes de holandeses, cortaram seus laços com a Europa. A relação com os britânicos, cuja presença se expandiu ao longo do século XIX, por sua vez, foi marcada pela sangrenta Guerra dos Bôeres, que derrotou os africâneres com extrema violência, deixando enorme ressentimento. Coetzee cresceu no vão entre as duas principais frentes da população branca sul-africana.
Sua escrita, marcada por um rigor intelectual, tem contorno ensaístico, recusa o papel de "voz da consciência" ou de porta-voz político. “Desonra”, romance que conferiu o segundo Booker Prize para Coetzee – o primeiro escritor a conseguir tal feito –, testa os limites morais de seus personagens. Nem sempre politicamente correto, o livro oferece rico material para reflexão aguda e profunda. Uma excelente leitura!
