Palimpsesto poético
“Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” (2016), da escritora e desenhista carioca Elvira Vigna (1947-2017), é um dos 25 livros incluídos na lista daqueles que não poderiam faltar na seleção do melhor da literatura brasileira deste século, de acordo com recente enquete realizada pela Folha de São Paulo.
O romance, que traz uma narrativa não linear e algo da prosa poética, aborda a relação de uma designer, a narradora da história, e cujo nome não sabemos, com João, executivo da Xerox por muitos anos, encarregado, então, de modernizar uma editora à beira da falência.
A designer conhece João a partir do desejo de reformar a livraria da editora. O projeto não é promissor, mas a amizade se estabelece e ela, por fim, passa parte de seus dias na editora, bebendo uísque em copinhos de plástico, com João, que lhe conta suas aventuras sexuais com prostitutas ou fala a respeito da ex-esposa, Lola.
O que une os dois personagens é o acaso. Ele, por acreditar que a designer é uma lésbica com experiência de vida, sente-se à vontade em lhe fazer confidências. Ela, dona de um olhar errante e curioso, apoia-se na fragmentação do discurso de João para compor uma narrativa que se tece em meio à sua e à nossa imaginação.
“Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” mostra o narrador preenchendo na sua mente as omissões e as lacunas dos relatos do outro em um trabalho em que se sobrepõem histórias e personagens. Aliás, aí está um significado para o título do livro.
Palimpsesto, como sabemos, refere-se a um papiro ou pergaminho raspado para dar origem a outro texto. Desse modo, o palimpsesto agrega, mesmo que apenas simbolicamente, vários discursos que se entrecruzam. O nome dado ao romance, engenhoso e estranhamente poético, aponta justamente para as múltiplas vozes e discursos que se entrecruzam na narrativa.
Veja que Vigna não se preocupa com fatos relevantes ou grandiosos de uma vida, sua narradora se atém aos acontecimentos pequenos, aqueles que parecem corriqueiros, mas corroem o cotidiano, correm no subterrâneo e podem abalar e mudar os rumos de uma vida.
A grande questão que, a mim, salta do livro é o trabalho constante das personagens em preencher os vazios de suas respectivas existências. Isso é especialmente explícito com João e sua busca incessante por companhia paga, por uma satisfação que nunca acontece e por uma repetição infinita de rituais ausentes de sentido.
Fato semelhante ocorre com a narradora e seus dias ocos. Preenchidos pelo uísque cowboy, bebido em copinhos descartáveis, a bebida escondida na letra “u” do fichário do escritório. Enquanto ouve as histórias lacunares e incompletas de João. Preenchidas pela imaginação. Avessas a qualquer experiência mais plena do existir.
Leitura interessante!