A escritora carioca Ana Paula Maia (1977-) foi finalista do prestigiado International Booker Prize de 2026. Muito embora não tenha ganhado o prêmio, que ficou com a taiwanesa Yang Shuang-zi, seu feito é considerável.
Ana Paula foi a primeira brasileira a chegar tão longe. Antes dela, Itamar Vieira Junior esteve na lista de finalistas em 2024. Paulo Scott e Raduan Nassar alcançaram a semifinal, em 2022 e 2017, respectivamente.
O livro com o qual Ana Paula concorreu é a versão em inglês de “Assim na terra como embaixo da terra”. A narrativa, que é seu sétimo romance e foi publicada originalmente no Brasil, em 2017, segue o estilo característico da autora.
Ana Paula, criada em Nova Iguaçu, filha de uma professora e de um comerciante, ambienta suas histórias em espaços isolados e cenários distópicos, caso desse romance que leva o leitor a uma colônia penal remota – uma instituição isolada de trocas com ambientes humanos, um espaço onde reinam a arbitrariedade hostil, o silêncio, a crueldade e, por fim, a loucura.
O local onde se passa “Assim na terra como embaixo da terra” abrigaria, em um primeiro momento, 50 detentos. Restam apenas 4. Isso porque Melquíades, o chefe, tem um hobby perverso e criminoso: caçadas humanas em noites de lua cheia.
Nessas ocasiões, ele escolhe um preso, o solta dentro da colônia e o caça como se fosse um bicho selvagem. Ele vai, assim, eliminando um a um. Aos detentos restantes, assassinos e estupradores, fica a tarefa de abrir a cova daquele que foi abatido.
Desnecessário dizer que estamos em contato com um lugar onde predominam a completa falta de perspectivas para todos e a banalização do mal – uma espécie de inferno em vida.
No início do romance, somos informados de que a colônia, uma antiga fazenda de escravos, está prestes a ser desativada. Melquíades e seu assistente esperam um oficial de justiça com o comunicado do encerramento das atividades do local.
A espera ansiosa do chefe parece recrudescer seus instintos e o deixa ainda mais enraivecido. Todos os personagens estarão, assim, envoltos em atos extremos e cometerão as mais diversas atrocidades. Acompanhamos uma verdadeira batalha entre presos e autoridades.
Ana Paula, que aborda, em suas palavras, “o que ninguém quer ver” na elaboração de uma literatura crua e visceral, cria situações que apontam para a completa desumanização do ser.
“Assim na terra como embaixo da terra” explora a violência institucionalizada e o faz em uma atmosfera de suspense e terror.
Aliás, é nessa linha que os jurados do International Booker Prize 2026 justificaram a indicação: um livro que mostra a “exploração crua e perturbadora do poder, da violência, da destruição e da corrupção institucional que permanecerá na memória dos leitores mesmo depois da última página.”
