“Antígona”, de Sófocles (c. 497 a.C. - c. 405 a.C.), foi encenada pela primeira vez no ano 441 a.C., em Atenas. Quase 25 séculos nos separam daquele momento. Nesse período, o mundo foi palco de profundas e renovadas mudanças. A tragédia, porém, se mantém atual.
Aliás, sua força seduziu escritores que originaram, ao longo do tempo, versões próprias da história. Caso de Jean Anouilh com “Antigone” escrita durante a ocupação nazista da França, em 1944, ou de Maria Zambrano com “A tumba de Antígona”, de 1967, para ficar com apenas dois exemplos.
É relevante observar que o mito que originou a tragédia circulava há séculos entre os gregos, quando Sófocles compôs sua peça. Antígona é filha de Édipo e Jocasta, irmã de Ismênia, Etéocles e Polinices. Os acontecimentos trágicos que assolaram sua família estão inseridos nas lendas da casa de Lábdaco e seriam contemporâneos ou pouco anteriores à Guerra de Tróia (c. 1.300 e 1.200 a.C.).
“Antígona”, que compõe a Trilogia Tebana ao lado de “Édipo Rei” e “Édipo em Colono”, tem início logo após a morte de Etéocles e Polinices. Eles haviam sido amaldiçoados por Édipo. Afinal, indiferentes ao seu sofrimento, eles o haviam expulsado da cidade, recusando-se a protegê-lo, tarefa que coube a Antígona.
A maldição de Édipo dava conta de que os filhos jamais chegariam a governar Tebas em paz e se matariam mutuamente em combate pelo poder. É o que ocorre.
A questão é que Creonte, o novo rei, entende que Etéocles defendeu Tebas e Polinices a traiu ao atacá-la com um exército estrangeiro. Ele determina, assim, que o primeiro seja sepultado com todas as honras e que o segundo seja privado dos ritos fúnebres e tenha seu corpo exposto para que seja devorado por animais.
Antígona não aceita as determinações do tio e cumpre os ritos junto ao corpo do irmão sob o argumento de que os costumes sagrados e as leis divinas exigem que todos os mortos tenham um fim digno. Creonte a condena à morte.
A tragédia de Sófocles é de envergadura reflexiva e filosófica gigantesca. A começar por problematizar a complexidade das questões éticas, avessas a simplificações.
“Antígona” fala sobre autoridade, poder e tirania. Sobre lealdade – à família, ao Estado, aos costumes. Fala sobre coragem e covardia. Sobre o feminino, sua capacidade de força e resistência em meio ao patriarcalismo. Fala sobre a lei humana e as tradições culturais e religiosas. Os princípios morais e as leis coercitivas.
A tragédia nos leva a refletir sobre o que é legal e o que é justo. Nos dias de hoje, as ideias que veicula estão presentes em debates que asseguram que os Direitos Humanos são inalienáveis, que o ser humano tem direito a uma vida e a uma morte dignas.
“Antígona” é um clássico admirável, que atravessa milênios, e merece ser lido e relido sempre!
