Clarice Lispector (1920-1977) não é uma escritora fácil de ser lida. Seus romances e contos não trazem tramas muito movimentadas. Poucas coisas acontecem. Em alguns quase nada. É a percepção do instante. As sensações únicas. Os insights que o encontro das personagens com o mundo experimenta, o que importa.
Nesse sentido, a escrita de Clarice recupera algo de místico na relação com o todo. Algo realizado com o uso preciso e singular da linguagem. Trata-se de um procedimento insondável. Enigmático. Talvez isso justifique o convite que ela recebeu para participar do I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, em 1975. Ela foi. Lá, leu o conto “O ovo e a galinha”, em espanhol.
Este, aliás, é um dos contos que compõem seu livro “A legião estrangeira” (1964). A obra, um bom exemplo da abordagem tão peculiar da escritora, traz narrativas enxutas. Treze contos em 100 páginas. Belas e únicas, elas são a expressão desse mundo de percepções agudas e perturbadoras da autora.
Algumas dessas histórias se tornaram muito conhecidas. É o caso de “A legião estrangeira”, que dá título à obra, e “A quinta história”. A última mistura o exercício narrativo com a obstinada tentativa de uma mulher em matar baratas. “Viagem a Petrópolis” é especialmente dramático. Trata da história de Mocinha, uma velhinha que é empurrada de casa em casa, sem ter onde morar. “Tentação” tem como protagonista uma menina ruiva com soluço. Sentada na frente de sua casa, ela vê surgir uma senhora com um cachorro basset “lindo e miserável”, ruivo como ela.
Um de meus favoritos é “A repartição dos pães”. É sábado de manhã e há um “almoço de obrigação”. A protagonista vai com má vontade: “cada um de nós gostava demais do sábado para gastá-lo com quem não queríamos”. A questão é que “aquela avareza de não repartir o sábado” cede diante do esmero da mesa que lhes fora preparada: “uma mesa para homens de boa-vontade”. Texto belíssimo que retoma o sagrado ao oferecer uma versão do fato bíblico e fala sobre o cuidado com o outro e a gratidão.
“O ovo e a galinha” consegue sempre me tirar o fôlego (isso é literal, fico inquieta e me falta o ar). O entrecho é dos mais rarefeitos. A situação se passa entre a personagem ver um ovo e fritá-lo. É o dia que começa e ela prepara o café da manhã para os filhos: “e o trabalho do dia amanhecido começa, gritado e rido e comido, clara e gema, alegria entre brigas, dia que é o nosso sal e nós somos o sal do dia, viver é extremamente tolerável, viver ocupa e distrai, viver faz rir”.
Se você quer retomar Clarice ou começar a lê-la, “A legião estrangeira” é uma boa pedida. Intenso e curto, ele é uma maneira de sondar esse terreno ardiloso e, por vezes, indigesto que é a escrita dessa bruxa da nossa literatura!
A LEGIÃO ESTRANGEIRA
Clarice Lispector
Editora: Rocco (2020)
Páginas: 128
Preço: R$ 44,90 (Em sebos virtuais a partir de R$ 10)
