Em maio de 2026, a literatura perdeu uma das vozes mais vigorosas e respeitadas da poesia contemporânea em língua portuguesa: a escritora e jornalista de São Tomé e Príncipe Conceição Lima (1961-2026).
Nascida em Santana, na costa leste do país insular, Conceição publicou cinco livros autorais. Destaco “O Útero da Casa” (2004), com poemas que buscam reconstruir a memória local e familiar, e “A Dolorosa Raiz do Micondó” (2006), livro que conecta seus conterrâneos à dor histórica do continente africano.
A história de São Tomé está muito presente em seus versos. O país foi um dos eixos centrais da engrenagem do tráfico transatlântico de escravizados. A ilha era o grande nó de onde partiam as linhas da diáspora que Conceição resgata especialmente no livro publicado em 2006.
“A Dolorosa Raiz do Micondó”, editado originalmente pela Editorial Caminho, de Lisboa, evoca seus laços genealógicos e o sofrimento dos seus antepassados, trazidos forçosamente de diversas partes da África para o arquipélago, que funcionou tanto como entreposto quanto como destino final da exploração escravista.
“Às vezes penso em suas lívidas ossadas / seus cabelos podres na orla do mar. / Aqui, neste fragmento de África / onde, virado para o Sul, um verbo amanhece alto / como uma dolorosa bandeira”.
O micondó (baobá, no Brasil), árvore considerada sagrada em diversas regiões da África, retoma elementos como a ancestralidade e a identidade dos africanos. As “raízes dolorosas”, a que se refere o título, fazem clara alusão aos fatos históricos que deixaram feridas na identidade nacional.
“Há-de nascer de novo o micondó – / belo, imperfeito, no centro do quintal. / À meia-noite, quando as bruxas / povoarem okás milenários / e o kukuku piar pela última vez / na junção dos caminhos”.
O lirismo de Conceição Lima evoca, ao mesmo tempo, o ancestral e o íntimo. O micondó, testemunha do tempo e espécie de guardião da memória do africano, está nas origens mais profundas a que a poeta se agarra em canto que se abre ao mundo como a copa frondosa de sua estrutura.
O lirismo denso e profundo origina uma poesia de grande personalidade, enorme beleza e forte consciência identitária africana: “Toma o ventre da terra / e planta no pedaço que te cabe/ esta raiz enxertada dos epitáfios // Não seja tua lágrima a maldição / que sequestra o ímpeto do grão / levanta do pó a nudez dos ossos / a estilhaçada mão / e semeia // girassóis ou sinos”.
A raiz do micondó retoma, para além das agruras, a força do povo africano. Trata-se de uma espécie de metáfora afro-diaspórica. Árvore que sobrevive ao tempo, seus ramos e frutos lidam com o presente; suas raízes, porém, resistem às intempéries, assim como o cantar de Conceição Lima, que se estabelece como um ato de sobrevivência e permanência neste belo livro!
