“A cabeça do santo” é o primeiro romance da escritora cearense Socorro Acioli (1975-). Publicado originalmente em 2014, ele traz uma história divertida e curiosa e é uma ótima maneira de adentrar a obra da autora.
Ler a história é aceitar um convite ao exercício de imaginação de Acioli, um passeio por sua prosa envolvente permeada por elementos do realismo mágico. “A cabeça do Santo” nos coloca em contato com a religiosidade popular brasileira, as questões da fé, do milagre, a vida no interior do Brasil, a ideia de pertencimento.
Acioli integra o extraordinário ao cotidiano de seus personagens. Qualquer semelhança com a literatura de Gabriel García Márquez não é mera coincidência. Os primeiros esboços do romance surgiram em 2006 quando Acioli participou de uma oficina literária ministrada pelo colombiano, em Cuba. Incentivada por seu entusiasmo, ela deu prosseguimento à história.
O romance se passa em uma cidade nordestina que renasce por meio da crença. Samuel deixa Juazeiro do Norte em direção a Candeia para cumprir uma promessa feita à mãe em seu leito de morte. Mariinha lhe pede que procure o pai que nunca conheceu, assim como a avó, e que acenda três velas aos pés da estátua de Santo Antônio da cidade.
Samuel caminha pelo sertão do Ceará e, consumido pelo cansaço, pela sede e pela fome, chega à cidade quase fantasma. Encontra facilmente a avó, mas não é bem recebido. Tampouco recebe informações sobre o paradeiro do pai.
A anciã lhe indica um lugar para que ele se abrigue: a cabeça gigantesca de uma estátua inacabada de Santo Antônio, que jaz separada do corpo. A partir de então, coisas extraordinárias ocorrem. Samuel passa a ser capaz de ouvir as preces das mulheres das redondezas e seus pedidos amorosos, que ecoam no interior da cabeça do santo.
O que mais perturba Samuel, porém, é uma voz que canta todos os dias na aurora e ao pôs do sol. Trata-se de algo que o intriga e o encanta, e que não o deixará em paz até que descubra quem é sua dona.
“A cabeça do santo” mostra a trajetória de Samuel na busca por suas origens. Mas, para além da viagem pessoal, o romance trata de algumas mazelas que assolam a vida contemporânea, como a exploração da fé empreendida por aqueles ligados a algum tipo de poder. Aliás, a estátua de Santo Antônio, que jaz degolada na cidade, pode ser vista como um instrumento da fé, além de uma metáfora para promessas políticas não cumpridas e o descaso com o dinheiro e o patrimônio públicos.
Uma curiosidade: a ideia para a ficção nasceu de um fato verídico. Na cidade de Caridade (CE), há uma enorme cabeça de Santo Antônio que repousa na rua há décadas, sem nunca ter sido unida ao corpo da estátua. Veja o quanto nossa realidade pode ser surreal!
“A cabeça do santo” é um romance excelente e delicioso de ler. Recomendo!
