Não sou uma grande apreciadora da ficção científica e relutei em ler “Fahrenheit 451”, do escritor norte-americano Ray Bradbury (1920–2012). Publicado inicialmente em 1953, o livro é tido como um romance distópico de ficção científica soft – aquela que trabalha com conceitos sociais e humanos em detrimento das ciências teórico-experimentais.
O convite para a leitura veio após ler a 4ª capa do livro que, além de trazer alguns dizeres do próprio Bradbury, a nos lembrar que o escritor é um fingidor (aqui eu parafraseio o verso de Fernando Pessoa) e que a ficção científica traveste o presente e o passado recente em futuro, nos alerta para o fato de que a obra se tornou um clássico da distopia, um livro redescoberto a cada nova geração e censurado em vários lugares e ocasiões. A situação é paradoxal e me chamou a atenção. Afinal, “Fahrenheit 451” denuncia todo e qualquer controle sobre a informação. O que mais chama a atenção é que editoras norte-americanas suprimiram trechos e expressões do original por considerarem impróprios para publicação, o que fez Bradbury elaborar um posfácio ao livro com duras críticas a esses editores, além de muita indignação.
“Fahrenheit 451” conta a história de Guy Montag, um bombeiro que tem a função de queimar livros. “451” se refere à temperatura da queima do papel (233 graus Celsius). Nessa sociedade do futuro, os livros são proibidos e o pensamento crítico é banido. Em meio a dias ocos e carentes de sentido, Montag conhece uma vizinha, uma adolescente curiosa chamada Clarisse. Atenta e reflexiva, ela o leva a questionar os motivos pelos quais os livros são queimados. É quando o protagonista decide começar a lê-los, indo assim contra as leis da sociedade em que vive. Nela, as pessoas são estimuladas a recordar ou memorizar os acontecimentos das suas próprias vidas, ou o que elas veem e ouvem no rádio e na TV. Estes, conteúdos filtrados pelo governo. Afinal, opiniões próprias são fortemente reprimidas e punidas. O súbito desaparecimento de Clarisse faz com que Montag se volte definitivamente contra o sistema que até então ajudou a construir e preservar.
Trata-se de um livro de conteúdo interessante e atual ao abordar não apenas sistemas autoritários e repressivos, mas, de maneira indireta, a superficialidade de tempos em que a imagem fala muito alto. Tempos em que pessoas se deixam escravizar por discursos massificados que circulam sem fim pelas mídias.
É claro que Ray Bradbury não pensava nas mídias sociais a que estamos acostumados em 2024, mas foi ele mesmo quem disse que tinha em mente o papel da televisão na vida das pessoas quando escrevia o livro. Aliás, uma das maneiras de controle, em “Fahrenheit 451”, é a instalação de televisões gigantescas nas casas. Ocupando paredes inteiras, elas entretêm seus habitantes com famílias virtuais com as quais podem dialogar. Se um clássico tem sempre o que dizer, o recado está dado!
FAHRENHEIT 451
Ray Bradbury
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 216
Preço: 59,90 (Em sebos virtuais a partir de R$ 19,90)
