A conversão do ex-Cinema Teatro Itália em uma filial de rede de supermercados, no sestiere de Cannaregio, não é um fato isolado de readequação arquitetônica. Trata-se do sintoma mais bem acabado de uma doença urbana crônica que afeta Veneza: o esvaziamento de sua identidade residencial em prol do turismo de massa. O fenômeno, frequentemente denominado "turistificação", atua como uma força centrífuga que expulsa o morador local e transforma o tecido urbano histórico em um parque de diversões temático para estrangeiros.
Quando um centro cultural fecha suas portas para dar lugar a um comércio voltado, em grande parte, para atender à demanda de conveniência e abastecer turistas que buscam compras rápidas, a cidade perde muito mais do que um prédio: desaparece um vértice vital de convivência comunitária. O Teatro Itália, que já foi um ponto de encontro para o debate, para a apreciação estética e para o lazer compartilhado dos venezianos, passa a operar na lógica do fluxo rápido, do anonimato e do consumo individual.
Veneza sofre há décadas com o êxodo progressivo de seus habitantes nativos, sufocados pelo custo de vida inflacionado, pela especulação imobiliária do aluguel de curta temporada e pela escassez de serviços básicos não turísticos. Ao permitir que um monumento neogótico seja engolido pela rotina do varejo de massa, o poder público e a iniciativa privada chancelam uma troca desigual. Transformar o espaço em supermercado até preserva a integridade física das paredes e dos afrescos de Alessandro Pomi, mas perde sua função primordial e altera profundamente, e de forma talvez irreversível, a dinâmica social.
Embora a utilização de prédios existentes para novas finalidades e uso seja uma forma inteligente de economizar recursos naturais, há ressalvas. Nessa nova ordem urbanística, a cultura deixa de ser o motor vivo de encontro dos cidadãos e a expressão de sua identidade local. Ela é rebaixada a um mero cenário estético, uma casca decorativa instagramável que serve apenas para agregar valor exótico ao ato mundano de fazer compras. Na crescente agonia urbanística, o patrimônio histórico sobrevive, mas despido de sua alma artística e comunitária, restando apenas como uma bela embalagem para o consumo turístico global.
