Enterramos nossos rios e cortamos nossas árvores como se fossem obstáculos. Canalizamos, cobrimos de concreto, transformamos a natureza em incômodo. Depois, reclamamos do calor e da enchente que nos visita. É o atestado final de que esquecemos quem somos.
O legado dos que vieram antes de nós não está nos bustos de praça. Está no urbanismo de qualidade e na cidade digna. Está na sombra que alguém plantou sem saber o nome de quem a desfrutaria. Na água limpa dos rios vivos, que deveriam ser lugar de lazer e contemplação, e não a vergonha de um esgoto a céu aberto.
Vivemos lutando contra a natureza. Que memória estamos plantando? García Márquez já nos avisou em Cem Anos de Solidão, em sua Macondo: estamos condenados a repetir os mesmos erros porque nos recusamos a lembrar. Chamamos de progresso a mesma tragédia com outro nome. Derrubamos a mesma mata, canalizamos o mesmo rio, prometemos o mesmo futuro e nos espantamos com o mesmo fim trágico.
O realismo mágico não está só no livro. Está aqui, quando o impossível acontece e ninguém se surpreende. É mágico acreditar que uma cidade sem árvore será mais fresca. É mágico acreditar que um rio morto não cobrará sua vida de volta. É mágico achar que haverá próximos humanos se não houver próxima sombra, próxima água, próxima respiração.
Uma cidade sem rio é uma cidade sem memória. Uma cidade sem árvore é uma cidade sem futuro. Precisamos libertar os rios e nos reencontrar com eles. Precisamos plantar árvores como quem escreve cartas para quem ainda não nasceu.
