A ideia de que profissionais e empresas de sucesso são aqueles que não erram precisa ser revista. Na minha avaliação, a chamada cultura do erro zero pode comprometer a segurança psicológica, dificultar o aprendizado e até aumentar os riscos dentro das organizações. Mais do que evitar falhas a qualquer custo, as empresas precisam aprender a lidar com elas de forma construtiva.
O resultado é um ambiente em que problemas deixam de ser comunicados, dúvidas não são esclarecidas e falhas podem permanecer ocultas por mais tempo. Em vez de contribuir para a qualidade e a segurança, a cultura do erro zero pode acabar dificultando a identificação de riscos e comprometendo o aprendizado das equipes.
Esse debate está diretamente relacionado ao conceito de segurança psicológica. O termo se refere à percepção de que é possível fazer perguntas, expressar preocupações, admitir erros ou compartilhar ideias sem medo de humilhação, constrangimento ou retaliação. Quando essa segurança existe, os profissionais tendem a participar mais das discussões, colaborar na resolução de problemas e contribuir de forma mais ativa para a melhoria dos processos.
Os dados reforçam essa visão. Levantamento da American Psychological Association (APA) mostra que trabalhadores que percebem maior segurança psicológica tendem a relatar melhores condições relacionadas à satisfação, produtividade e desempenho. Isso demonstra que permitir que as pessoas se expressem e relatem dificuldades não enfraquece os resultados, pelo contrário, pode fortalecer o desempenho das equipes e das organizações.
Outra pesquisa publicada em 2024 pela APA mostra que culturas organizacionais fortemente punitivas podem incentivar comportamentos como esconder ou ignorar falhas para evitar responsabilização. Em contrapartida, ambientes com maior segurança psicológica tendem a favorecer o relato de problemas e a busca por soluções. Essa diferença é significativa porque as organizações só conseguem corrigir aquilo que conhecem.
Outro ponto importante é o impacto da cultura organizacional sobre o desenvolvimento profissional. Uma revisão sistemática publicada na revista Learning and Instruction identificou que a segurança psicológica está entre os fatores que favorecem a aprendizagem no ambiente de trabalho. Quando o medo de errar prevalece, profissionais tendem a evitar perguntas, esconder dúvidas e deixar de compartilhar experiências que poderiam contribuir para o crescimento coletivo. Em outras palavras, o receio da punição pode se transformar em uma barreira para a inovação e para a melhoria contínua.
Na prática, isso significa substituir a busca imediata por culpados por uma análise mais ampla das circunstâncias que levaram ao erro. Quais fatores contribuíram para o problema? Houve falhas de comunicação? Os processos estavam adequados? Os recursos disponíveis eram suficientes? Essas perguntas costumam gerar respostas mais úteis para a prevenção de novos incidentes do que simplesmente identificar um responsável.
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que fatores relacionados à organização e às condições de trabalho podem representar riscos psicossociais. Por isso, as estratégias de prevenção precisam considerar não apenas os indivíduos, mas também a forma como o trabalho é estruturado e gerenciado.
Por isso, acredito que a maturidade organizacional não está em eliminar completamente os erros, algo impossível em qualquer atividade humana, mas em criar condições para que eles sejam identificados, comunicados e corrigidos rapidamente. Quando a pergunta deixa de ser "quem errou?" e passa a ser "o que podemos aprender com isso?", empresas e trabalhadores ganham a oportunidade de evoluir juntos.
