Terapia celular e retinopatia
A terapia celular é uma abordagem inovadora e promissora para o tratamento de doenças da retina. Entre as enfermidades destacamos a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), retinite pigmentosa (RP), distrofia macular de Stargardt e retinopatias vasculares, incluindo a retinopatia diabética — todas com potencial de evoluir para perda significativa da visão ou mesmo cegueira.
A terapia visa substituir ou reparar as células retinianas perdidas — fotorreceptoras e do epitélio pigmentar da retina (EPR) — por meio do transplante de células-tronco ou progenitoras derivadas de diferentes fontes. Atualmente já existem relatos nacionais envolvendo o uso de células-tronco mononucleares manipuladas, oriundas da medula óssea. Evidências clínicas e pré-clínicas demonstram que a terapia celular pode melhorar a acuidade visual em pacientes das doenças anteriormente citadas. Estudos em animais, o transplante de células precursoras de fotorreceptores pode resultar em integração celular e melhora funcional da retina, embora os mecanismos precisos dessa integração ainda não sejam totalmente compreendidos.
Outro grupo de doenças que acometem a retina são as de origem autoimune. Elas caracterizam-se por deterioração visual progressiva e indolor, defeitos no campo visual, anormalidades na eletrorretinografia e presença de anticorpos circulantes contra antígenos retinianos. Em janeiro passado, a Frontiers in Immunology publicou um trabalho científico relatando o uso do transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas no tratamento dessa moléstia. O caso envolvia uma paciente de 49 anos que havia sido submetida, sem sucesso, a múltiplos tratamentos, incluindo corticosteroides, diversos imunobiológicos de classes distintas e vários imunossupressores, apresentando piora constante da visão. O tratamento consistiu na coleta de células da própria paciente a partir do sangue periférico, seguida de manipulação e processamento em laboratório, para posterior administração por via endovenosa, de forma semelhante a uma transfusão de sangue convencional. O tratamento envolveu o uso de imunossupressores e estimuladores da medula óssea, com o objetivo de promover uma reprogramação e reconfiguração do sistema imunológico, a responsável pela progressão da doença.
Os resultados foram imediatos: a paciente recuperou a percepção de luz e, 22 meses após o procedimento, permanece em remissão clínica, sem sintomas, evidenciando uma resposta duradoura ao tratamento. Em síntese, o tratamento com o transplante autólogo de células-tronco hematopoiéticas deve ser considerado, mas apenas em casos excepcionais e refratários a todas as terapias convencionais. No entanto é necessário ponderar riscos e morbidades associadas, especialmente aqueles decorrentes do uso de imunossupressores.
A terapia celular para retinopatias encontra-se em fase de desenvolvimento clínico, com evidências crescentes de benefício, sobretudo nas doenças degenerativas da retina. A sua aplicação em larga escala depende de avanços significativos na segurança, eficácia e na regulamentação.
Se os resultados positivos observados forem confirmados por estudos clínicos robustos e controlados, a terapia celular poderá representar uma verdadeira mudança de paradigma no tratamento das doenças retinianas, oferecendo esperança de preservação ou restauração da visão para milhares de pessoas que hoje não dispõem de opções eficazes.