Nesse novo tempo, em que é somente um trem cargueiro que ouço todas as manhãs, recorro a um outro tempo de trens poéticos, quando tivemos um feliz reencontro. Foi uma curta viagem pela serra até o mar. Deslumbrante cenário. Além da aventura de tão encantadora viagem, havia também, a sedução da montanha. Partimos rumo à Paranapiacaba, que em tupi-guarani significa – a cidade onde se vê o mar. A pequena, mas sofisticada composição guardava ainda, algum requinte da época em que fora inaugurada, com alguns vagões restaurados na tentativa de recompor o luxo outrora existente.
Conferia tim-tim por tim-tim o meu sonho distante, nunca esquecido de andar de trem. E o vagão-restaurante, ainda seria igual ao das minhas lembranças? A aura de fausto não mais existia. As flores desbotadas das toalhas perderam a elegância. Em compensação, traziam a emoção do devaneio. Pedi um café expresso com pão de mel. As xícaras antigas e delicadas cumpriram o ritual do momento. Devorei a iguaria com idêntica avidez dos meus sete anos.
A viagem pela cordilheira foi emocionante. Aterrissamos.
Sim, aterrissamos, porque a descida foi um voo. Planamos entre a terra e o céu até atingirmos a vila. No sistema funicular, presos aos cabos de aço, iniciamos a aventura de transpor a montanha. Descemos setecentos e sessenta metros até vislumbrarmos o mar.
A Cordilheira do Mar apresentou-se formosa à nossa passagem. Dia de sol, a primavera a florir a manhã. Quaresmeiras. Ipês rosas e brancos, manacás, pau-cigarras, manchavam o verde da paisagem serrana.
A estação era uma coisa linda. Arquitetura inglesa, século XIX. Na cidade ,fiquei sabendo que a Vila Ferroviária de Paranapiacaba pertence ao município de Santo André, no estado de São Paulo, e foi tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural), em 2008, com o objetivo de preservar bens de valores histórico, cultural, arquitetônico e ambiental.
Visitamos todos os sítios. Conhecemos a história daquela estrada de ferro, construída para os funcionários da São Paulo Railway, e graças a ela, nosso café chegava mais rápido aos lares europeus. Imaginei dias de neve, salas à meia luz e o saboroso líquido fumegante, sendo sorvido por desconhecidos que ignoravam a poética travessia. Pela serra e pelo mar.
A volta foi tranquila. Entardecer, sol-poente explodindo na tarde azul primaveril, cabos rangendo pelo esforço de carregar tantas histórias.
Saltei na estação, maravilhada com a minha viagem de trem, num tempo em que não se viaja mais neles. Em um tempo em que, ao invés da poesia e alegria, provoca tragédias imensas com mortes inesperadas, mas paradoxalmente, anunciadas.
Nesse novo tempo em que nossos trens causam sofrimento e inquietude, que vão desde a tristeza à angústia por mortes, à amargura de perdas afetivas e materiais.
Nesse novo tempo em que nossos trens não grafam contos de amor, mas deixam trilhas de dor, é somente um trem cargueiro que ouço todas as manhãs. Deixa a cada alvorecer, saudade. Passa nostálgico a embalar emoções antigas e imorredouras.
E para que eu não as esqueça, como amante ciumento, anuncia sua passagem.
E desta forma, renova diariamente nossa antiga história de amor.
