Recentemente ouvi a canção de Celso e Pedro Viáfora intitulada “Não vai dar certo” e achei sensacional, pois revela muito do nosso país e do nosso sentimento como brasileiros. Convido a ouvirem também!
Desde que me entendo por gente, ouço que o Brasil é o país do futuro. Era um bordão repetido com orgulho nas escolas, nos discursos políticos, nas conversas de família. A promessa era de que chegaríamos a ser uma potência econômica, social e cultural, rivalizando com as nações mais desenvolvidas do planeta. Hoje percebo que o futuro prometido não chegou e, nesta toada, nem vai chegar.
Essa sensação de esperança interrompida não é só minha. É um sentimento coletivo, quase hereditário. Gerações inteiras cresceram ouvindo que o Brasil tinha tudo para dar certo: território imenso, riquezas naturais incomparáveis, diversidade cultural, clima favorável, um povo criativo e trabalhador. E, de fato, não há como negar que o potencial existe. Mas, na prática, o país parece andar em círculos ou, pior, dar alguns passos à frente para depois recuar.
Essa frustração na música “Não vai dar certo”, dos Viáfora. Com um olhar afiado e um humor melancólico, ela sintetiza aquilo que muitos sentem: a percepção de que, apesar de todas as oportunidades e recursos, algo sempre emperra. O refrão é quase um diagnóstico nacional. E não é apenas sobre política ou economia, mas sobre a sensação de que o país, no fundo, vive refém de um roteiro previsível, em que as grandes promessas são substituídas por pequenos remendos e, no fim, a história recomeça.
O Brasil, afinal, já teve seus momentos de otimismo. O “milagre econômico” dos anos 1970, a redemocratização dos anos 1980, o Plano Real nos anos 1990, o boom das commodities nos anos 2000. Mas, em todos eles, a euforia cedeu espaço a crises econômicas, escândalos de corrupção, instabilidade política e desconfiança generalizada. É como se estivéssemos sempre no limiar de uma virada histórica e, invariavelmente, algo sempre nos puxasse de volta.
Nos últimos dois ou três anos, essa sensação se intensificou. A economia patina, enquanto o custo de vida segue cada vez mais alto. As disputas políticas seguem em tom inflamado, com um Congresso fragmentado, um Executivo cercado de crises e desconfiança e um Judiciário intervencionista. Casos de corrupção voltam a ocupar manchetes, reforçando a percepção de que nada muda de fato. Em 2025, o clima se agravou: conflitos entre poderes, tensões diplomáticas e desordem fiscal minam a confiança interna e externa. A sensação de paralisia se tornou quase um traço cultural, como se o país estivesse preso a um labirinto de suas próprias contradições.
A turbulência é especialmente visível. Polarização política intensa, descrédito nas instituições, economia estagnada e problemas sociais crônicos formam um cenário que reforça o coro do “não vai dar certo”. A música de Celso e Pedro Viáfora, portanto, não é apenas uma crítica — é também um espelho. Ao ouvir, rimos de nervoso, porque nos reconhecemos. O humor ácido e a ironia são maneiras de lidar com a dor de ver um país tão cheio de possibilidades perder tempo com disputas mesquinhas e soluções improvisadas.
Talvez, no fim, essa eterna sensação de “quase” seja o maior drama brasileiro. Vivemos na fronteira entre o sonho e a frustração, com uma paciência que, para muitos, já se transformou em resignação. E, enquanto seguimos esperando que o futuro chegue, a trilha sonora de “Não vai dar certo" ecoa como um lembrete incômodo: o potencial está aqui, mas não basta ter — é preciso transformar. E essa transformação, se vier, depende de mais do que esperar. Depende de mudar o roteiro.
