Adélia Prado (1935-) escreveu seus primeiros versos aos 15 anos de idade, em Divinópolis, Minas Gerais, onde nasceu e vive até hoje. No início dos anos 1970, ela enviou originais ao crítico e escritor Afonso Romano de Sant’Anna, que apreciou os poemas e os mostrou a Carlos Drummond de Andrade.
Considerados “fenomenais” pelo poeta mineiro, eles chegaram à Editora Imago, que publicou o primeiro livro da autora, “Bagagem” (1976). Desde então, muitas foram as obras que Adélia Prado publicou, a maioria delas de poesia ou de literatura infantojuvenil.
“O Jardim das Oliveiras” (2025), seu livro mais recente, é o primeiro desde 2013, quando Adélia publicou “Miserere”. Composta por 105 poemas inéditos, a obra coincide com a celebração dos 90 anos da poeta, que conquistou os prêmios Camões e Machado de Assis em 2024.
Em “O Jardim das Oliveiras”, Adélia entrelaça fé, experiência mística e vida doméstica. Trata-se, aliás, de um traço característico de sua poesia, que não mostra o divino como uma abstração distante, mas, sim, encarnado no corpo, no trabalho diário, na memória e na rotina simples do interior mineiro.
O título do livro sugere a natureza do conteúdo ao evocar um lugar de oração, enfrentamento da dor e da angústia. Conhecido como Getsêmani, esse jardim é o local para onde, segundo os evangelhos, Jesus teria se retirado para orar com os seus discípulos após a Última Ceia. Foi também ali que Judas Iscariotes o traiu com um beijo.
Os poemas de “O Jardim das Oliveiras”, que abordam temas como a finitude e o tempo, são marcados por uma serenidade grave: “Deixa, e os cabelos crescem. / O mato ao redor da casa / abrigará grilos e sapos. / As lagartixas sem segurança / virão explorar teu quarto. / A paciência é espessa / como a massa do pão não levedado. / O pão não é paciência, / o ovo é. / O rio é paciência, o mar não é. / Quero a que amadurece a fruta / e os embriões. / A paciência é fé”.
Os poemas abordam, ainda, lembranças, indagações existenciais e espirituais, o corpo cansado e o mistério da vida. Cito o poema ‘Pange Língua’: “Assim, sem mais, / me pesam os olhos / saudosos de um futuro / que não acontece. / Nada acode à pobreza / da minha pouca valia, / a perfeição impossível. / Neguei o dia esplêndido / e a face conhecida no espelho. / “O que aconteceu?” / À misericórdia pergunta, / a alma desperta / e a pobre língua consente: / Maranata!”.
“O Jardim das Oliveiras” é uma obra de grande depuração lírica, leitura essencial para os que acompanham a poesia brasileira e querem apreciar uma maturidade poética que se expressa com leveza e espiritualidade. Ao final da leitura, ressoa a pergunta que Adélia Prado lança no poema “Solo” e à qual cada verso seu parece responder: “Não se faz poesia apenas com palavras; / poemas, sim, mas quem precisa deles?”
O JARDIM DAS OLIVEIRAS
Adélia Prado
Editora: Rocco
Páginas: 144 (2025)
Preço: 40,00
