Embora o título possa sugerir o contrário, não abordarei comportamentos humanos, mas estratégias inusitadas usadas por insetos para alimentar e garantir a sobrevivência de sua prole. Para ilustrar, recorrerei às microvespas, insetos que costumam medir entre 0,3 e 3 mm.
Um exemplo emblemático são as vespas-do-figo, as quais mantêm uma relação mutualista com as figueiras: elas obtêm alimento e abrigo da planta para si e suas crias e, em troca, a polinizam. No figo, que não é fruto, mas sim inflorescência composta por pequeninas flores de ambos os sexos, não ocorre autopolinização, pois as flores femininas amadurecem antes das masculinas. Nesse cenário, microvespas fêmeas cumprem um papel fundamental: atraídas pelo odor das flores femininas maduras, perdem asas e antenas, entram no figo imaturo pelo ostíolo e ali depositam ovos e pólen trazido de outra figueira. Ao emergirem, os machos, cegos e sem asas, fecundam as fêmeas e morrem em seguida. Elas, aladas, recolhem o pólen das flores masculinas e saem em voo frenético, rastreando o odor peculiar de flores amadurecidas. Têm poucas horas para reiniciar o ciclo, obrigatório para a reprodução de ambas as parceiras.*
Porém, nem todas as interações são harmoniosas, algumas podem ser agressivas, quase macabras: vespas parasitoides injetam ovos no interior de outros insetos, cujos corpos são lentamente consumidos por suas larvas, restando apenas a carcaça eviscerada onde se formam as pupas. Ao descrever uma nova espécie, Fagan-Jeffries comenta que esse comportamento lembra o da criatura alienígena do filme “Alien: O Oitavo Passageiro”. Desconfio que Dan O'Bannon tenha se inspirado nessas vespinhas para criar a personagem.
Em situações menos extremas, vespas endoparasitas transformam lagartas em verdadeiros guarda-costas. Como suas larvas se alimentam apenas da hemolinfa, sem danificar os tecidos, a lagarta permanece viva. No entanto, quando as larvas saem para formar o casulo na cutícula da hospedeira, um processo inflamatório a deixa em estado de torpor absoluto, interrompido apenas por perturbações externas. Nesse momento, ela reage, gira a cabeça e ataca, com mordidas, potenciais predadores da crisálida.
Um terceiro elemento pode também participar da relação. As delicadas joaninhas, predadoras vorazes de pulgões e cochonilhas, são parasitadas por minúsculas vespas braconídeas. Negras como azeviche, com cintura afilada e lindos olhos verdes, elas depositam um único ovo na joaninha; junto de um vírus com o qual vivem em simbiose. Como apenas suas gônadas e células adiposas servem de alimento, a joaninha não morre; contudo, o vírus compromete seu sistema nervoso, paralisando-a, enquanto seu corpo é perfurado pela larva, que sai para construir o casulo entre suas patas. Espasmos regulares e involuntários da "joaninha zumbi" espantam potenciais predadores do casulo. Ao emergir, a vespa também assumirá o papel de hospedeira, ou presa, seguindo o fluxo da cadeia alimentar.
*Vale notar que não consumimos figos usados como berçários de vespas. A espécie Ficus carica foi introduzida no Brasil pelos portugueses no século XVI, mas não a vespa polinizadora; por isso, elas se reproduzem apenas por mudas.
