Voltou a circular pela internet o discurso de formatura de 2023 da Universidade Northwestern, proferido pelo governador do estado americano de Illinois, que defendeu que bondade e gentileza são sinais de inteligência. Ele explica que, instintivamente, como espécie, quando nos encontramos com alguém diferente de nós - quer seja porque ame diferente, fale diferente ou tenha um corpo diferente - um primeiro movimento é julgar, temer ou os dois. Isso é um processo instintivo e foi evolutivo, nossa espécie evoluiu desconfiando do que não lhe era familiar. Para ser gentil, é preciso colocar nosso cérebro em um caminho que supere nossos instintos básicos. Atos de crueldade são registros que revelam que a pessoa falhou no primeiro teste para uma sociedade mais avançada. Elas nunca forçaram seu cérebro a evoluir para além dos seus instintos. Nesse contexto, Pritzker afirma que, ao longo de seus muitos anos na política e nos negócios, descobriu uma coisa universalmente verdadeira: a pessoa mais gentil da sala é frequentemente a mais inteligente. Sugere também que a melhor maneira de identificar um idiota é procurar a pessoa mais cruel. Obviamente, para não ser simplória, é preciso pensar no que realmente significa ser bondoso, empático e gentil.
O filósofo coreano Byung- Chul Han, em seu livro de 2017, “A sociedade do cansaço”, afirma que ao contrário da ideia de vantagem que o fato de conseguirmos - ou sermos obrigados - a fazer um número enorme de ações ao mesmo tempo, a multitarefa é um retrocesso. A multitarefa é uma exigência de sobrevivência na vida selvagem, na qual se é obrigado a dividir a atenção em diversas atividades. A cultura, entretanto, exige um ambiente em que seja possível uma atenção profunda, assim como o processo criativo exige o tédio. A multitarefa nos afasta do que tem sido evolutivo no ser humano: a possibilidade de focar, de se dedicar com concentração a uma só tarefa. Um exemplo geral, é o caso das mulheres. Temos sido multitarefa por necessidade. Os papéis de mães, administradoras da casa, cuidadoras dos mais velhos, cozinheiras etc. forçam-nos a não ter a possibilidade de focar em uma atividade, o que se traduz em uma desvantagem geral em termos de desenvolvimento de alguns tipos de atividades. As mulheres têm muito mais dificuldade de ter tempos livres, tempos de contemplação, tempos de tédio, de solidão e de ócio.
Empatia, gentileza e compaixão podem parecer fraquezas, mas exigem a capacidade de superarmos impulsos primitivos e, nesse sentido, são um exercício que nos ajuda a compreender que a diferença não é necessariamente uma ameaça. Ser multitarefa muitas vezes é uma necessidade, pode ser considerado uma habilidade, mas também nos afasta da característica específica e essencialmente humana de concentração e foco. Conseguir identificar se estamos diante de um problema ou uma vantagem é essencial para nos posicionarmos. Evolução ou retrocesso, nem tudo que a princípio parece, sempre é.
