Espelho, espelho meu: o que restou da mulher real nas redes sociais?
Na década de 1950, a mulher era ensinada a ser perfeita para o outro — boa esposa, mãe exemplar, sempre impecável. Havia um roteiro pronto. Hoje, em 2025, a moldura mudou, mas a pressão persiste. A perfeição continua sendo exigida, agora sob o olhar constante das redes sociais.
O Instagram, o TikTok e outros espelhos digitais tornaram-se vitrines para a performance da mulher contemporânea. Espera-se que ela seja autêntica, mas use filtros. Que aceite seu corpo, mas siga padrões inalcançáveis. Que seja forte, mas doce. Inteligente, mas leve. Cuidadora, mas produtiva. É um checklist invisível, impossível de cumprir, que acompanha cada postagem.
Esse ciclo de contradições tem consequências concretas. No consultório, crescem diagnósticos como dismorfia corporal, depressão ansiosa, síndrome da impostora e exaustão emocional — entre mulheres que vivem em comparação constante e sensação de insuficiência.
Nunca estivemos tão conectadas — e tão distantes de nós mesmas. As conexões virtuais, embora instantâneas, raramente oferecem o acolhimento real. O que se exibe na tela é um recorte filtrado, que reforça a ideia de que “o outro” está sempre melhor.
Ao contrário do espelho mágico da madrasta da Branca de Neve, os filtros não mostram quem somos, mas quem deveríamos ser — segundo critérios externos e muitas vezes comerciais. Ao nos vermos tão diferentes do nosso reflexo, começamos a nos perder, a duvidar da própria história e a moldá-la para caber em um feed.
Mas há saídas. Reconstruir a saúde mental feminina passa por recuperar o direito à imperfeição. Por permitir-se dias sem registro, momentos sem produção de conteúdo, escolhas sem justificativas. Por olhar-se com compaixão e valorizar histórias vividas — e não apenas mostradas.
Como destacou recentemente o El País, a obsessão da Geração Z por uma “pele perfeita” repete a lógica da magreza idealizada pelas millennials. Mudou o alvo, mas não a pressão. E, cada vez mais, observo jovens — especialmente modelos e influenciadoras — enfrentando o food noise, uma fixação constante com comida e corpo, agravada pelo uso indiscriminado das “canetas emagrecedoras”. Fármacos úteis quando bem indicados, mas usados como atalhos estéticos, alimentando um ciclo de ansiedade, restrição e autoimagem distorcida. Assim, segue-se exigindo das mulheres um sacrifício invisível: o de não poder simplesmente ser.
Talvez, no fim das contas, a pergunta ao espelho não seja “quem é a mais bela de todas?”, mas: “Quem sou eu quando ninguém está me olhando?”