A prescrição médica é o ato clínico de selecionar e indicar medicamentos para um paciente, fundamentado em uma avaliação individualizada, com objetivos terapêuticos claros e princípios éticos de beneficência, não maleficência, autonomia e justiça.
Em contrapartida, a desprescrição refere-se à retirada ou redução de medicamentos considerados inapropriados, ou desnecessários, incluindo aqueles prescritos por outros médicos, quando se constata que os danos potenciais superam os benefícios esperados de um determinado tratamento.
Esse processo envolve princípios éticos fundamentais, como agir no melhor interesse do paciente, avaliar riscos e benefícios, respeitar as preferências e objetivos do paciente e garantir justiça em relação aos custos e à distribuição equitativa de recursos.
Entretanto, a desprescrição enfrenta um desafio ético significativo: a relutância em modificar medicamentos prescritos por colegas, vista por muitos como uma barreira à autonomia do prescritor original e um receio de consequências negativas. Assim, muitos médicos expressam incerteza ao alterar medicamentos prescritos por outros profissionais. Um exemplo claro de desprescrição ocorre com pacientes geriátricos, que ao utilizarem múltiplos medicamentos (≥ 5 ou ≥ 9) apresentam maior risco de eventos adversos, interações medicamentosas e uso de fármacos sem indicação clara. Outros exemplos incluem pacientes com multimorbidade e alta complexidade clínica, usuários de medicamentos de alto risco, pacientes em transição de cuidados e aqueles com histórico de baixa adesão ou confusão em relação à medicação. O conhecimento claro sobre as medicações, suas interações, assim como os efeitos sinérgicos e antagonismos, deve ser avaliado cuidadosamente.
A implementação da desprescrição deve ser centrada na comunicação com o paciente e envolver decisões compartilhadas. É fundamental explicar claramente as razões para a desprescrição, focando nos riscos de eventos adversos e na ausência de benefícios continuados, utilizando uma linguagem simples, adaptada ao nível de compreensão do paciente. Além disso, a documentação de todas as conversas sobre mudanças de medicamentos deve ser registrada no prontuário médico.
É essencial abordar as preocupações do paciente e de seus familiares em relação à descontinuação de medicamentos, já que essa relutância pode ser uma barreira significativa. Sempre que possível, deve-se comunicar com o médico prescritor original para coordenar os cuidados e garantir que o paciente receba recomendações coerentes, especialmente em situações de divergência de opiniões que precisam ser esclarecidas.
A abordagem deve ser individualizada, com monitoramento próximo e comunicação clara entre profissionais e pacientes, visando minimizar riscos e otimizar resultados clínicos.
Em suma, a desprescrição é uma prática clínica fundamental que, realizada de forma cuidadosa e ética, pode trazer benefícios significativos à saúde e ao bem-estar dos pacientes. A colaboração entre profissionais de saúde, pacientes e seus familiares é essencial para garantir que as decisões tomadas sejam as melhores para cada indivíduo, contribuindo para um tratamento mais seguro e eficaz.
