A cor da pele é um dos nossos fenótipos mais visíveis. Ao longo da evolução humana, a pigmentação cutânea sofreu mudanças consideráveis entre as diferentes populações geográficas. Essa variação foi moldada por interações complexas entre fatores genéticos, ambientais e de saúde.
O Homo sapiens surgiu na África, onde a radiação ultravioleta é intensa. A pele dos primeiros hominínios devia ser clara e o corpo coberto por pelos grossos, como o de outros primatas. Com a adaptação à savana africana, os pelos se tornaram finos e esparsos, otimizando a termorregulação, enquanto a síntese de melanina aumentou, escurecendo a pele. Variantes genéticas associadas a essas características prevaleceram nessas populações.
A melanina age como um filtro, absorvendo a luz ultravioleta (UV) e impedindo sua penetração profunda na pele, o que poderia danificar o DNA. Assim, ela reduz o risco de câncer de pele e impede a degradação do folato (vitamina B9) circulante pelos capilares cutâneos — nutriente necessário para o desenvolvimento do sistema nervoso, maturação da medula óssea e produção de hemácias. Sua deficiência durante a gravidez pode levar a malformações no feto, tais como anencefalia, espinha bífida e fissura labial e palatina.
No entanto, os raios UV não são "vilões", são fundamentais para a síntese de vitamina D, substância essencial para a saúde óssea e outras funções vitais. Sua insuficiência pode levar ao raquitismo, diabetes, doenças cardiovasculares. Como a dieta supre apenas de 10% a 20% da necessidade diária dessa vitamina, a exposição a esses raios é crucial: se a absorção cutânea for baixa, a produção da vitamina será reduzida; se muito alta, porém, o folato será degradado.
O impasse foi solucionado pela variação da cor da pele de acordo com as diferenças hemisféricas nos níveis de radiação UV. Essa foi uma das notáveis mudanças adaptativas da nossa espécie em resposta às mudanças de ambiente, iniciada quando os primeiros humanos migraram da África — onde a incidência dessa radiação é alta e constante — e se estabeleceram na Europa e no leste asiático, de incidência mais baixa. Nas latitudes elevadas, a pele muito melanizada dos imigrantes africanos era uma desvantagem, e genes associados à menor pigmentação eram favorecidos, resultando no seu clareamento. Assim, foi possível equilibrar a proteção contra a degradação do folato nos trópicos e a síntese adequada de vitamina D nas zonas temperadas. Essas adaptações ocorreram de forma independente em diferentes regiões do mundo com latitudes semelhantes.
Influências culturais também contribuíram para essa diversidade. Na Ásia Oriental, a predileção por peles mais claras fez com que os hábitos de exposição ao sol mudassem, reduzindo ainda mais a pigmentação. Por outro lado, a dieta rica em peixes gordurosos, fonte abundante de vitamina D, mantém a pele dos inuítes mais escura do que a dos europeus, apesar da mínima radiação UV no Ártico.
Por fim, apesar de lamentável, é necessário ressaltar que a variação da tonalidade da pele humana — uma adaptação-chave para a expansão da espécie em distintas regiões do planeta — ainda está associada a profundas desigualdades socioeconômicas e de saúde.
