As canetas emagrecedoras dominam atualmente o noticiário e impactam diferentes esferas da sociedade, envolvendo desde exposição intensa na mídia até registros de roubos em farmácias, falsificações, debates em políticas públicas de saúde e, mais recentemente, polêmicas no meio esportivo quanto à sua prescrição e aos possíveis efeitos indesejados.
A semaglutida, a primeira dessas medicações a ganhar destaque, foi aprovada nos Estados Unidos, inicialmente para o controle glicêmico em adultos com diabetes tipo 2. Posteriormente, passou a ser indicada também para redução do risco cardiovascular em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e para proteção renal em indivíduos com doença renal crônica associada ao diabetes tipo 2.
A tirzepatida, por sua vez, foi aprovada para o tratamento da obesidade e para a manutenção da perda de peso em adultos com sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso, além de ter indicação para o tratamento da apneia obstrutiva do sono em adultos com obesidade. Enquanto a semaglutida atua como agonista do receptor do GLP-1, a tirzepatida apresenta ação dupla, estimulando os receptores de GLP-1 e GIP, o que potencializa seus efeitos metabólicos. Ambas promovem perda de peso significativa: a semaglutida pode induzir redução de cerca de 15% do peso corporal, enquanto a tirzepatida pode alcançar até 21%.
Os efeitos adversos mais frequentemente observados são gastrointestinais, como náuseas, diarreia, constipação e vômitos. Em geral, esses sintomas são de intensidade leve a moderada e tendem a ser transitórios. No entanto, há riscos descritos de formação de cálculos biliares, pancreatite, eventos renais e alterações tireoidianas, sendo contraindicado o uso em pacientes com histórico pessoal ou familiar de câncer de tireoide, ou neoplasias endócrinas. Estratégias para minimizar esses efeitos incluem refeições menores e fracionadas, aumento da ingestão de fibras e líquidos, ajustes graduais de dose e monitoramento rigoroso da perda de peso, a fim de evitar desnutrição ou sarcopenia. Recentemente, inclusive, um grande clube nacional de futebol esteve envolvido em controvérsia relacionada ao uso dessas medicações, diante de possíveis interferências na performance esportiva de atletas.
A perda de massa magra e de força muscular é descrita como um possível efeito associado ao uso dessas drogas, o que pode impactar negativamente o desempenho esportivo, especialmente em atletas de alto rendimento, nos quais pequenas variações de composição corporal e força têm grande relevância. Nesses casos, o acompanhamento nutricional especializado deve ser intensificado, associado a ajustes no treinamento resistido e ao monitoramento funcional, com testes de força e avaliação da função muscular, visando minimizar riscos e prevenir lesões musculares.
Entretanto, os dados da literatura científica ainda são controversos. As evidências disponíveis sobre o impacto da semaglutida e da tirzepatida na força muscular, potência e desempenho físico em atletas de elite e de alta performance são limitadas, uma vez que a maioria dos estudos clínicos foi conduzida em adultos com obesidade, diabetes tipo 2 ou distúrbios metabólicos, e não em populações atléticas.
Até o momento, não existem ensaios clínicos registrados, relatos de caso publicados ou dados preliminares específicos sobre o uso dessas medicações em atletas de alto rendimento, tampouco sobre seus efeitos diretos na força, potência ou desempenho físico nessa população. Assim, qualquer extrapolação deve ser feita com cautela, e o uso em atletas de elite ainda carece de respaldo científico sólido. A semaglutida passou a ser utilizada para diabetes tipo 2 a partir de 2017 e para obesidade desde 2021, enquanto a tirzepatida foi aprovada em 2022 para diabetes tipo 2 e apenas em 2023 para obesidade. Dessa forma, somente o tempo, o acompanhamento clínico prolongado e novos estudos poderão esclarecer plenamente seus reais benefícios e riscos.
