Um estudo conduzido por Zhang Y. e colaboradores, do Departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, China e da Universidade de Harvard, em Boston (Massachusetts), foi publicado em nove de fevereiro deste ano no Journal of the American Medical Association (JAMA), uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo.
A pesquisa acompanhou 86.606 mulheres entre 1983 e 2023 e 45.215 homens entre 1986 e 2023, totalizando 131.821 participantes. O objetivo foi identificar casos de demência por meio de registros de óbito e diagnósticos médicos. Como desfecho secundário, avaliou-se o declínio cognitivo com a aplicação de questionários cientificamente validados.
Os resultados demonstraram que maior consumo de café e chá com cafeína esteve associado a menor risco de demência e a desempenho cognitivo ligeiramente melhor. A associação foi mais evidente quando a ingestão ocorreu em níveis moderados.
Segundo o estudo, o consumo diário de duas a três xícaras de café pode trazer benefícios, reforçando achados anteriores. Vale destacar que o Brasil, seguido do Vietnã e da Colômbia, está entre os maiores produtores mundiais de café, enquanto Finlândia, Noruega e Dinamarca figuram entre os principais consumidores.
A cafeína é uma das substâncias mais estudadas e consumidas no mundo, com longa história de uso. Trata-se de um alcaloide da classe das xantinas, conhecido desde a antiguidade, com registros de origem na Etiópia no século IX. Está presente no café, no chá e no chocolate.
Seu principal efeito é a estimulação do sistema nervoso central, aumentando o estado de alerta e a concentração. Também pode elevar a frequência cardíaca e a pressão arterial, sendo útil, em alguns casos, para pessoas com hipotensão. Além disso, possui efeitos diuréticos, anti-inflamatórios e pode potencializar a ação de analgésicos.
Entretanto, o consumo excessivo pode provocar ansiedade, nervosismo, insônia e distúrbios do sono, especialmente quando ingerida em altas doses ou no período noturno. Tanto o café quanto o chá contêm compostos bioativos, como polifenóis e cafeína, que vêm sendo associados à duvidosa redução do risco de doenças cardiovasculares e da mortalidade por todas as causas. Há ainda evidências de possível efeito protetor na doença de Parkinson.
Como não há unanimidade em ciência, os próprios autores reconhecem limitações no estudo, como possíveis fatores de confusão não totalmente controlados e a falta de detalhamento sobre o tipo de chá ou o método de preparo do café, que podem influenciar a concentração de cafeína e de outros compostos bioativos. Além disso, cada coorte foi composta por participantes de um único sexo, o que pode limitar a generalização dos resultados para a população em geral.
As evidências científicas atuais apontam que o consumo moderado de cafeína, especialmente por meio do café e do chá, pode contribuir para a proteção do cérebro ao longo do envelhecimento, reduzindo o risco de demência e atenuando o declínio cognitivo. Embora não se trate de uma garantia absoluta, os dados reforçam que hábitos simples do dia a dia podem exercer impacto real na saúde mental futura.
Dentro de um estilo de vida equilibrado, que inclua alimentação saudável, atividade física e controle dos fatores de risco cardiovascular, o consumo moderado de duas a três xícaras de café ao dia pode representar não apenas um prazer cotidiano, mas também um possível aliado na preservação da memória e das funções cognitivas ao longo dos anos.
