“Eu não sei se vem de Deus / Do céu ficar azul / Ou virá dos olhos teus / Essa cor que azuleja o dia?”, canta Djavan. Por que os olhos azuis atraem tanto?
Nossos ancestrais mais remotos não os possuíam. Eles tinham olhos castanho-escuros, e suas retinas estavam protegidas da luz UV emitida pelo implacável sol africano. A íris azul é muito recente. Surgiu em um europeu há cerca de 14 mil anos, quando uma mutação desativou parcialmente o gene responsável pela produção de melanina. Hoje, ocorre em até 95% dos habitantes do norte europeu, mas em apenas 5% dos equatorianos. Esse impressionante salto, de uma pessoa para milhões em poucos milhares de anos, suscita questões cujas respostas não são consensuais.
À pergunta "O que causou esse aumento?", a resposta tradicional, "Porque era vantajosa e foi selecionada", não é convincente. Na verdade, ocorre o oposto. Com a redução da melanina, a íris dispersa mais a radiação de onda curta, percebida como azul, e permite a entrada de até cem vezes mais luz do que nos olhos escuros, reduzindo a proteção da retina. Olhos claros constituem um fator de risco para doenças oculares.
A teoria da seleção sexual, proposta por Charles Darwin, responde à pergunta: "Como um traço capaz de ameaçar a saúde pôde se tornar tão difundido?". Ela postula que certos atributos persistem, mesmo à custa de alguma desvantagem à sobrevivência, se favorecerem a conquista do sexo oposto. Exemplos emblemáticos são o canto melodioso dos pássaros e as cores brilhantes dos peixes (atraindo o outro sexo, mas também predadores) e as enormes galhadas de alces e veados (intimidando os rivais, mas custando energia extra para serem sustentadas). Como o macho costuma ser o sexo mais ornamentado, Darwin deduziu que os adornos evoluíram pela preferência das fêmeas, expressão de seu "gosto natural pelo belo".
Esse tipo de seleção é consensual, mas a razão da escolha —a beleza "per se"— não. Uma alternativa seria a "vantagem da cor rara". Olhos de cor invulgar atrairiam os potenciais maridos, minoria na tundra pleistocênica, devido ao árduo modo de vida dos caçadores eurasiáticos. Nesse caso, uma pressão seletiva atípica teria atuado não sobre os homens, mas sobre as mulheres, tornando-as as cortejadoras. Elas passaram a disputar os poucos homens sobreviventes, exibindo seus lindos olhos azuis.
No entanto, para Paola Bressan, essa hipótese não se sustenta, visto não se aplicar aos olhos verdes, também antigos e ainda mais raros. Ao constatar que homens e mulheres preferem olhos azuis a qualquer outra cor, a pesquisadora propôs que eles seriam um ornamento, como a cauda exuberante do pavão. Sugere, ainda, que a preferência tenha evoluído porque já existia um viés natural pela cor. Assim como as manchas em forma de olho na cauda do pavão captam a atenção inata das aves para os olhos (cuidado com os seus!), o azul seria um signo visual de céu sereno e águas límpidas. Nesse contexto, os versos de Elton John, em "Blue Eyes" (“Olhos azuis, sorrindo ao sol / Sorrindo na chuva / Meu bem tem olhos azuis / Como o mar azul profundo / Em um dia de céu azul claro”), e de Djavan, em “Azul”, ganham mais significado.
