Estamos ingressando no Antropoceno, uma nova época marcada pelo impacto das atividades humanas no planeta? Para responder a essa pergunta, é necessário relembrar que a história geológica da Terra é dividida em intervalos de tempo cujos limites são demarcados por vestígios de mudanças globais preservados em rochas e no registro fóssil. Também recorro a eventos das duas últimas épocas da era Cenozóica: Pleistoceno e Holoceno.
O Pleistoceno, que se estendeu de 2,6 milhões a 11,7 mil anos atrás, foi palco de cinco grandes glaciações, daí o nome “Idade do Gelo”. Milankovitch propôs, em 1942, a teoria hoje aceita de que os períodos glaciares se devem a variações na órbita terrestre, que se torna mais elíptica a cada 100 mil anos, por aumentos na inclinação de seu eixo de rotação a cada 41 mil anos, e por oscilações do eixo, como as de um pião, a cada 25 mil anos. Em conjunto, tais alterações reduzem a incidência de radiação solar no planeta. Com temperaturas globais mais baixas, os oceanos absorvem grandes volumes de CO₂ da atmosfera, reduzindo o efeito estufa, resultando no resfriamento global e na expansão dos mantos de gelo. A concentração desse gás variou de 180 ppm (partes por milhão) nos períodos glaciares a 300 ppm nos interglaciares, favorecendo a flora que requer menos CO₂ para realizar a fotossíntese e levando à expansão das savanas africanas, onde se originou a espécie humana.
Por outro lado, o Holoceno, a época atual, é visto como um período interglacial de clima estável e quente. Nele a humanidade se dispersou pelos cinco continentes. Mas o clima permanece estável? Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2023), as concentrações atmosféricas de CO₂, acima de 410 ppm, e de outros gases de efeito estufa (CH₄, N₂O e O₃) estão hoje mais elevadas do que em qualquer outro momento nos últimos dois milhões de anos, tornando os eventos climáticos extremos mais frequentes. Não menos importantes são as mudanças graduais, como a acidificação dos oceanos, o aumento do nível do mar, o desmatamento e o degelo do “permafrost”, que libera grandes quantidades de CO₂ e CH₄ resultantes da decomposição de organismos congelados desde as eras glaciais. Tais mudanças colocam mais de um milhão de espécies de plantas e animais em risco de extinção. Bastariam para desencadear “a época da humanidade”?
Os defensores do Antropoceno afirmam que sim e situam seu início na aceleração da industrialização e do aquecimento global, a partir da década de 1950. Suas pegadas já estão sendo deixadas na crosta terrestre na forma de toneladas de resíduos de plástico, concreto, aço e alumínio; de fuligem e cinzas resultantes da queima de combustíveis fósseis; de elementos radioativos provenientes das bombas atômicas de 1945 e dos inúmeros testes nucleares posteriores; e da elevada concentração de gases de efeito estufa em comparação com aquela de bolhas de ar retidas no “permafrost”, verdadeiras cápsulas do tempo. Ainda não há consenso sobre a concretude dessa época, e não viveremos o suficiente para comprovar se tais marcas assinalaram o seu início. No entanto, podemos usar o tempo de que dispomos para evitar que elas se intensifiquem.
