Às vezes uma palavra carregada de informação merece e ganha espaço no vocabulário geral, de modo que a repetição se torna automática e acaba por deixá-la enfraquecida ou até esvaziada. Para mim, longevidade é uma delas, não por desconhecermos seu significado, mas por ignorarmos quanta transformação ela carrega em si.
Uma pergunta comum que surge quando se fala sobre criação de filhos é aquela a respeito do tempo dedicado, se seria melhor qualidade ou quantidade. As duas coisas, óbvio. Mas, sabendo que quase nunca vivemos o ideal almejado, penso sempre que um mínimo de quantidade é a condição básica para que a qualidade possa existir.
Nesse sentido, com certeza a nossa conquista ao longo da história humana em ter mais anos de vida não é qualquer coisa, senão uma grande revolução social.
Há um século, uma pessoa vivia cerca de 35 anos no Brasil e no mundo. É uma média pior que a de países com as mais baixas expectativas de vida no planeta; hoje, na faixa dos 53 anos. Segundo o IBGE, nossa expectativa de vida ao nascer é de 76,6 anos; isto é, ganhamos 41,4 anos no último século.
Isso não quer dizer que vivamos o mesmo tanto e do mesmo jeito quando falamos, por exemplo, de realidades no Nordeste e no Sul do país, de homens e mulheres, moradores de condomínios de classe média alta e populações ribeirinhas, pessoas cis e transgênero ou pessoas negras e brancas, entre outras.
Mesmo considerando diferentes experiências e especificidades, a possibilidade de viver várias vidas numa só, graças ao ganho de tempo, é uma conquista para todos nós.
Um salto possível por fatores como o fim das grandes guerras, a descoberta de vacinas e a erradicação ou controle de doenças transmissíveis, o enfrentamento à mortalidade infantil, à fome e à desnutrição, as transformações tecnológicas, as melhores condições de trabalho e renda, os avanços em termos de saneamento básico, moradia, acesso à saúde e assistência, escolarização e direitos sociais.
A geneticista Mayana Zatz, israelense radicada no Brasil desde os 8 anos de idade, estuda os centenários brasileiros e defende que viver entre 90 e 100 anos já é razoável a partir de hábitos de alimentação saudável e prática regular de exercício físico. A pesquisadora da USP acredita que nossos fatores genéticos poderão nos levar aos 120, vivendo bem.
Essa última parte — a duração da vida com qualidade, envolvendo aspectos biológicos, emocionais, sociais e comportamentais — é o próximo horizonte a ser conquistado.
O professor e gerontólogo Alexandre Kalache faz uma conclusão tão frustrante quanto verdadeira: envelhecer de forma precária é um prêmio vazio. Pois viver muito e sobreviver muito são coisas bem diferentes.
Longevidade é uma perspectiva que extrapola a saúde orgânica e funcional. Está relacionada com a qualidade de vida que criamos a partir de nossos aprendizados, da nossa produtividade, de quem amamos, de como nos divertimos. É a possibilidade de planejar as possibilidades de usufruir dos anos conquistados.
Todas as nossas decisões no ciclo de vida consideram, de forma consciente ou não, nossa projeção em anos. O que deve, então, sustentar essa que passou de uma corrida de 100 metros rasos para uma maratona? Te conto em nosso próximo "Na Trilha da Longevidade".
