A pandemia de Covid-19, iniciada no final de 2019, matou milhões de pessoas e deixou consequências que ainda desafiam a medicina. Entre elas está a chamada Covid longa, condição que pode persistir por meses ou anos e cuja definição, mecanismos e tratamento continuam sendo estudados. Em nosso programa Medicina & Ciência, temos abordado a presença dos vírus ao longo da história e mostrado como epidemias e pandemias participaram de profundas transformações das civilizações, influenciando sociedades, economias, guerras e até a ascensão e queda de impérios.
Mas outra questão permanece aberta e provoca discussões científicas e políticas: afinal, de onde veio o SARS-CoV-2?
Nos Estados Unidos, a controvérsia ganhou novo impulso em julho de 2026, quando Anthony Fauci, que durante décadas dirigiu o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas — NIAID — e teve papel central na resposta americana à pandemia, compareceu perante o Senado. Orientado por seus advogados, Fauci invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição americana, que permite não responder a perguntas quando as respostas possam resultar em autoincriminação. O episódio reacendeu acusações e debates sobre pesquisas realizadas com coronavírus e sobre eventual financiamento americano de estudos na China.
No centro da discussão está também o chamado “ganho de função”. De maneira simplificada, são pesquisas que podem modificar características de microrganismos para compreender como eles evoluem, infectam diferentes hospedeiros ou adquirem maior capacidade de transmissão. Esses experimentos podem contribuir para antecipar ameaças, desenvolver vacinas e preparar o mundo para futuras epidemias. Entretanto, determinadas experiências envolvendo agentes potencialmente pandêmicos apresentam riscos de biossegurança e, por isso, exigem controles extremamente rigorosos.
O debate não começou com a Covid-19. Experimentos com o vírus da gripe aviária H5N1 já haviam provocado intensa discussão internacional. Em 2014, o governo americano suspendeu temporariamente o financiamento de determinados estudos de ganho de função; posteriormente, estabeleceu novas regras para sua avaliação e controle.
E quanto ao SARS-CoV-2? Até hoje não existe demonstração conclusiva de que tenha sido criado em laboratório. A avaliação publicada pela Organização Mundial da Saúde em 2025 considerou que o conjunto das evidências disponíveis favorece uma origem zoonótica, ou seja, a passagem de um vírus de animais para seres humanos. Entretanto, a própria OMS reconheceu que informações importantes não foram disponibilizadas e que um acidente relacionado a laboratório não pode ser definitivamente descartado.
Portanto, ciência e política precisam ser separadas. Hipóteses devem ser investigadas, não transformadas prematuramente em certezas. Saber como começou a Covid-19 não é apenas procurar culpados: é descobrir como evitar a próxima pandemia. Vírus continuarão existindo, sofrendo mutações e atravessando fronteiras. Nossa melhor defesa continuará sendo ciência de qualidade, transparência, vigilância epidemiológica e responsabilidade na pesquisa.
