As Ciências realizam o concerto de experimentos e buscas do saber. Alicerçadas no engenho criativo, avizinham-se da Poesia com a diferença de que se sujeitam a provas, verificações. Seu discurso é referencial, cognitivo, explica fenômenos, formula teorias e técnicas. Há fundas assimetrias entre as Ciências Humanas (psicanálise, sociologia, crítica das artes, história) e outros ramos do conhecimento: Ciências Formais (lógica, informática, estatística, linguística teórica), Ciências Físicas (astronomia, mecânica quântica, geologia, química), as Ciências da Vida (ecologia, nutrição, zoologia, medicina). Tantas vezes dialogam-se, entreajudam-se e seguem em paralelo. Pergunto: Como mensurar, descrever com rigor acadêmico as inquietações subjetivas e segredos da alma nos tempos e lugares? Ensinava o medievalista espanhol Menéndez Pidal: “Nas ciências do espírito nada se pode provar indiscutivelmente”.
Acabo de ler ‘A Ciência e as Ciências’, do filósofo francês Gilles-Gaston Granger (Ed. Unesp, 1994). Lembra-nos, com outros argumentos e exemplos, de que a Ciência não é uma torre de marfim, mas nossa irmã ladina, inteligente, sinfonia de belos acordes. No entanto, a exatidão de um físico não pisa o mesmo solo pedregoso que o artista e seu cinzel a arrancar no granito um Pensador; que o matemático e seus teoremas não consulta a mesma enciclopédia que o biólogo a deslindar genomas das espécies vivas; que o astrônomo não vai ao firmamento sonhador da benzedeira e suas rezas e alecrins untados de fé. No entanto, todos se miram em comunhão, com presságios, deduções, hipóteses e raciocínios ponderados.
O livro ‘A Ciência e as Ciências’ descerra visão diacrônica das evoluções e revoluções científicas, e qualifica o Século XX como início da “Idade da Ciência”. No passar do tempo, mesmo que acene descontinuidades, o saber é consecutivo, até genético, como chegou a pensar Sigmund Freud. Impossível dissociar descobertas sobre as partículas de luz em linha reta (Isaac Newton, Séc. XVII), da teoria ondulatória da luz e relatividade do tempo (Albert Einstein, Séc. XX). Porém, nesta Idade da Ciência, um temor se avulta na quarta capa da publicação: “A importância e urgência que nela assumem problemas éticos decorrentes da prática científica”. “Ética”, acresço, no sentido aristotélico: Respeito à felicidade guiada pela virtude e razão.
Alertava a velha índia, minha bisavó, com ares sabedores: “Tudo que passa do ponto vira tranqueira”. Em 1996 assistimos ao olhar perdido da ovelha Dolly clonada de uma célula. Dela “nasceram” cópias idênticas: Dayse, Debbie, Dianna, Denise. Laboratórios chineses deram à luz os bebês-primatas Zhong Zhong e Hua Hua, trancafiados em jaulas. Bem antes das ações consumadas nos horrores das Bombas Atômicas, Joseph Mengele, o Anjo da Morte, almejou ressuscitar exemplares de Adolf Hitler para cuidarem do mundo. Sobre isso, o cinema nos legou ‘Os Meninos do Brasil’ (1978), de Franklin Schaffner, com Gregory Peck no papel de um geneticista. Que lençol se molhou com o sêmen da loucura?
