Sou professor em 100% do tempo, disse o mestre da Escola de Comunicações e Artes da USP, Clovis de Barros Filho. Assisti a algumas de suas conferências, como na ESALQ/USP, de Piracicaba, em 2014. A encantar auditórios, inquiriu: Quem escolhe ser professor? Apanha em salas de aula, tem o carro riscado no estacionamento da escola... Salários indignos, condições de trabalho ultrajantes, nenhuma compensação simbólica e valorização social... Mas, exclamou, se louvamos os que ajudam os outros, que linda a nossa profissão! Tudo termina no aluno. É ele que aprende, que se forma, projeta-se na vida... Se ser feliz é estender a mão aos outros, o professor contribui para abrandar tristezas, colabora para que se pense o que não se havia pensado. Nas doutrinas de Jesus, nossos alunos são “o próximo”.
Discorreu sobre “Ética e Valores”. Restrinjo-me a reportar as comparações entre a ética greco-latina e a revolução proposta por Jesus, 350 anos depois de Aristóteles. Clovis de Barros Filho baseou-se em duas palavras gregas e suas semânticas: “Aretê”, que significa excelência pessoal, capacidade e virtude moral para o alcance de objetivos e posições do indivíduo em sociedade, coragem e força nas adversidades. Fomenta o individualismo; “Agapê”, o amor paciente e prestativo. No cristianismo, o objetivo maior da vida não está nela mesma, mas no outro. Em Mateus 22:39, Jesus ensina a amarmos o próximo como a nós mesmos. É coletivista, prega a partilha e solidariedade. Qual a preocupação de um ateniense? Compensações pela excelência de si mesmo.
Os gregos partiam do princípio de que os talentos individuais, sendo desiguais, determinam a desigualdade dos seres. Para Aristóteles, o principal dos talentos humanos é a capacidade de pensar. Portanto, o mais inteligente é hierarquicamente superior e mais digno, moral e politicamente. Assim se justificaria a escravidão já que, se as pessoas são superiores ou inferiores umas às outras, é normal que haja senhores e escravos; são aceitáveis as desigualdades, até perante as leis. Para Jesus, ao contrário, alguém ser mais bonito, mais astuto, mais inteligente não é tão importante do ponto de vista ético. As bases da moralidade clássica são irrelevantes porquanto, no cristianismo, vale o uso deliberado dos talentos, o livre-arbítrio que leva as pessoas a usarem para o bem ou para o mal suas aptidões e o que possuem.
Clovis de Barros Filho, como sempre, suscita entusiasmos, aplausos. Normal, em se tratando de um professor magnífico, um intelectual generoso. Perguntou: O que os gregos, inventores da democracia, pensavam sobre a igualdade entre pessoas? A resposta é outra, se comparamos com os valores cristãos, por, pelo menos, mil e quinhentos anos. Os atenienses diziam: Busque a excelência de seus potenciais a qualquer preço e danem-se escravos, amigos e até familiares, pois quem erigiu o cosmos, a harmonia universal, foi Zeus. E Zeus não gosta de gente que vira as costas à ânsia de se ser o melhor como indivíduo e, assim, mais apto para o desfrute e comando da democracia. Democracia, aliás, que só existe na falta de um humanismo mais humano.
